Ataques Israel x Irã sinalizam afastamento entre Trump e Netanyahu

Ataques Israel x Irã sinalizam afastamento entre Trump e Netanyahu

Não se sabe ainda se os ataques entre Israel e Irã no domingo (7) e nesta segunda-feira (8) foram apenas uma troca pontual de hostilidades ou se representam o início de uma retomada total na guerra, iniciada em 28 de fevereiro e desde 7 de abril em um tenso cessar-fogo.

Entretanto, analistas ouvidos pela Gazeta do Povo afirmaram que essas ações já indicam dois pontos: o conflito voltou a escalar regionalmente e as posições do presidente americano, Donald Trump, e do premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, a respeito da guerra estão distantes.

Segundo informações do jornal The Times of Israel, o Khatam al-Anbiya, o comando militar de emergência do Irã, anunciou em um comunicado “a cessação das operações das forças armadas” – ou seja, Teerã não planeja novos ataques contra Israel por ora.

“No entanto, ressalta-se que, se a agressão e os atos de violência continuarem, inclusive no sul do Líbano, medidas muito mais severas e repressivas do que as anteriores serão tomadas”, acrescentou o comando, citando a motivação iraniana para o ataque contra Israel: a ofensiva israelense contra o grupo terrorista Hezbollah, aliado do Irã, no Líbano.

Horas depois, segundo o Times of Israel, fontes do governo Netanyahu disseram que as Forças de Defesa do país (FDI) interromperão os ataques ao Irã caso Teerã também cesse sua ofensiva, mas que as ações no Líbano continuarão – cenário que o regime islâmico considera inaceitável.

“Foi a primeira vez que um ataque de Israel a um terceiro país – no caso, o Líbano – foi respondido pelo Irã. Isso é relevante e mostra que o conflito escalou regionalmente”, afirmou o coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em ciência política internacional, em entrevista à Gazeta do Povo.

“Os houthis já anunciaram o fechamento do Estreito de Bab-el-Mandeb [entre o Mar Vermelho e o Golfo de Adem], o que já é outro nível de escalada do conflito”, acrescentou o especialista, citando a ação de outro aliado do Irã nesta segunda-feira em resposta ao ataque israelense.

Trump havia pedido a Netanyahu para não responder

A reação de Israel ocorre em um momento em que Trump vem cobrando Netanyahu para que interrompa as ações nas duas frentes, Líbano e Irã, mas vem sendo ignorado.

Na semana passada, segundo o site Axios, o presidente americano teria dado uma bronca no primeiro-ministro de Israel por ter aprofundado a ofensiva no Líbano sob a justificativa de que os ataques do Hezbollah continuam.

Segundo a reportagem, Trump teria dito a Netanyahu durante um telefonema: “Você é louco, p*. Você estaria na prisão se não fosse por mim. Estou salvando a sua pele. Todo mundo te odeia agora. Todo mundo odeia Israel por causa disso”. Uma das fontes relatou que o presidente americano teria dito também: “Que p* você está fazendo?”.

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Devido à intensificação da ofensiva de Israel no Líbano, o Irã havia anunciado na segunda-feira passada (1º) que suspendeu as negociações de paz com os Estados Unidos. Horas depois, Trump disse que intermediou um cessar-fogo entre Israel e Hezbollah, mas as hostilidades continuaram nos dias seguintes, o que motivou o ataque iraniano ao território israelense.

Segundo informações da emissora CNN, Trump havia pedido em um telefonema no domingo para que Netanyahu não realizasse um ataque retaliatório contra o Irã, alegando que um acordo para encerrar o conflito estava próximo de ser alcançado.

Nesta segunda-feira, o presidente americano escreveu na rede Truth Social que “Israel e Irã devem parar imediatamente de atirar” e alegou que os dois países “estão buscando um cessar-fogo imediato”.

“As negociações finais de paz estão em andamento, sujeitas a que a ignorância ou a estupidez as atrapalhem. O bloqueio permanecerá em vigor, com toda a sua força e efeito, até que um acordo final seja alcançado. As coisas devem avançar rapidamente”, escreveu Trump, mencionando o bloqueio a portos do Irã que os EUA vêm implementando para forçar Teerã a chegar a um acordo para encerrar o conflito.

Em entrevista à reportagem, o coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo, disse que é difícil prever nesse momento se os ataques entre Israel e Irã serão retomados com força total, mas destacou que a resposta de Netanyahu indica uma distância para os aliados americanos.

“Trump está decidido a fazer um acordo com o Irã, que o tire dessa enrascada. Entretanto, sua capacidade de decidir o rumo dos acontecimentos e sua autoridade estão se dilapidando. O Irã, com os ataques a Israel, quer transformar o conflito no Golfo Pérsico e no Líbano em uma única questão. O esforço israelense era no sentido de separá-los, até para ter autonomia em relação aos EUA para atuar como entender no seu entorno. O Irã teve êxito nesse objetivo [aglutinar os debates sobre as duas frentes]”, afirmou Gomes Filho.

“Netanyahu não tem liberdade política no âmbito interno para atuar com total alinhamento com os EUA. A pressão [dentro de Israel] para reagir aos ataques iranianos será sempre enorme. No fim, o prosseguimento ou não do conflito está nas mãos dos iranianos”, afirmou Gomes Filho.

Antes mesmo dos ataques iranianos interceptados por Israel, Netanyahu vinha sofrendo pressão interna sobre as negociações EUA-Irã para encerrar a guerra.

No final de maio, o líder oposicionista Yair Lapid afirmou que o regime do Irã “não entrou em colapso, ele foi fortalecido”, contrariando uma das metas dos israelenses no conflito, e afirmou que as conversas estavam ocorrendo “sem a presença de Israel na mesa de negociações”.

“Israel é um Estado soberano, não um protetorado americano”, disse Lapid, que foi premiê de Israel em 2022, antes de Netanyahu voltar ao poder.

Com a troca de ataques neste início de semana, o conflito no Oriente Médio, apesar dos discursos oficiais de que não haverá mais confrontos, volta a ganhar imprevisibilidade.



Fonte ==> Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto

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