Transformar uma ideia em produto digital ainda costuma exigir uma sequência longa: definir requisitos, contratar desenvolvedores, integrar sistemas, testar a solução e corrigir falhas antes do lançamento. Em empresas menores, essa estrutura frequentemente significa semanas de espera e dependência direta da área de tecnologia.
A inteligência artificial generativa começa a reduzir essa distância. O avanço do chamado vibe coding permite que usuários descrevam, em linguagem natural, o sistema que desejam construir, enquanto a IA gera códigos, interfaces e funcionalidades. A abordagem diminui a barreira técnica, embora ainda exija validação humana, atenção à segurança e controle sobre as integrações.
É nesse movimento que a Nexxa apresentou, durante o Web Summit Rio 2026, o Nexxa Aura. A ferramenta foi desenvolvida para criar produtos digitais com uma lógica WhatsApp first: em vez de adaptar posteriormente um site ou aplicativo para o mensageiro, a solução já nasce para funcionar dentro do canal.
A programação sai do editor e entra na conversa
Na prática, o usuário descreve por meio de um comando o produto ou processo que pretende criar. A partir disso, a plataforma estrutura a aplicação, os fluxos de interação e as conexões necessárias para que ela funcione no WhatsApp.
A proposta acompanha uma mudança mais ampla na indústria de software. Ferramentas de vibe coding passaram a ocupar o espaço entre as plataformas tradicionais de desenvolvimento e os sistemas no-code. Elas permitem maior personalização do que modelos baseados apenas em blocos e templates, mas sem exigir que o usuário escreva cada linha do código.
O movimento já atrai empresas globais. O Google, por exemplo, incorporou ao AI Studio uma ferramenta capaz de gerar aplicativos a partir de comandos de texto, utilizando modelos da família Gemini e outros recursos de inteligência artificial da companhia. A entrada das grandes plataformas nessa categoria indica que o desenvolvimento mediado por linguagem natural começa a deixar a fase experimental para se tornar parte da infraestrutura de criação de software.
WhatsApp virou infraestrutura de negócios
A escolha por desenvolver produtos diretamente no WhatsApp tem relação com o peso econômico do aplicativo no Brasil.
Pesquisa do Opinion Box aponta que 97% dos usuários brasileiros acessam o mensageiro pelo menos uma vez ao dia. O estudo também mostra que 69% consideram o aplicativo um bom canal para comunicação com empresas e que 75% já contrataram algum serviço por meio dele.
Entre pequenos negócios de serviços, a presença é igualmente relevante. Levantamento do Sebrae identificou que mais de 80% utilizam o WhatsApp na comunicação com clientes. Ao mesmo tempo, menos de 10% reconhecem o CRM como uma ferramenta importante para a operação. Na região Sudeste, esse percentual cai para 2%.
Os números mostram um contraste: o canal está consolidado, mas os processos que acontecem dentro dele continuam pouco estruturados. Conversas, pedidos, cadastros e atendimentos ainda dependem, em muitos casos, de atividades manuais e de informações dispersas.
É justamente nessa lacuna que ferramentas capazes de transformar conversas em jornadas estruturadas buscam espaço.
Aura quer encurtar o caminho até o produto
De acordo com a Nexxa, o Aura pode ser utilizado para construir produtos como formulários, jornadas de cadastro, processos administrativos, sistemas de cobrança, consultas a bancos de dados e integrações com serviços externos.
A ferramenta também busca ampliar quem consegue participar da criação desses produtos. Áreas como marketing, produção, atendimento e administração poderiam desenvolver protótipos e fluxos sem depender integralmente de uma equipe de programação.
Isso não elimina a necessidade da tecnologia da informação. Em operações mais complexas, profissionais especializados continuam sendo fundamentais para revisar arquitetura, segurança, tratamento de dados e estabilidade. A mudança está na possibilidade de reduzir o trabalho necessário para tirar uma ideia do papel e testar sua viabilidade.
Durante os testes, o CEO da Nexxa, Rudson Sanches, afirma ter criado uma aplicação conectada a um serviço externo sem precisar estudar previamente a documentação técnica.
“Mesmo não sendo programador, criei em minutos um WhatsApp Flow integrado a uma API de terceiros. Não precisei ler a documentação deles. A ferramenta conseguiu estruturar essa conexão a partir do que foi solicitado”, afirma o executivo.
A demonstração representa o principal argumento econômico do produto: diminuir o tempo entre a identificação de uma necessidade e a colocação de uma primeira versão em operação.
Cobrança da Meta aumenta pressão por eficiência
O lançamento também acontece em um momento de mudança na política comercial da WhatsApp Business Platform.
A Meta anunciou que, a partir de 1º de outubro de 2026, passará a cobrar individualmente pelas mensagens de serviço, incluindo respostas enviadas durante a janela de atendimento ao cliente. Os valores devem ser publicados pela companhia até 1º de setembro.
Até então, as mensagens de serviço são entendidas como mensagens livres enviadas dentro da janela de atendimento iniciada pelo usuário.
Para Rudson Sanches, a mudança tende a pressionar empresas que construíram operações dependentes de longas sequências de mensagens conversacionais.
“A Meta passará a cobrar pelas mensagens de serviço e está no direito dela, porque é dona da estrada e pode definir o valor do pedágio. Quem trabalha profissionalmente terá que adequar a operação. Com o Nexxa Aura, podemos ajudar empresas que estavam em bots totalmente conversacionais a utilizar, por exemplo, o WhatsApp Flows”, afirma.
A leitura do executivo é que jornadas com formulários, menus e componentes estruturados podem reduzir interações desnecessárias e tornar o atendimento mais objetivo. A mudança não elimina os custos da plataforma, mas pode alterar a arquitetura econômica dos produtos construídos sobre ela.
De bots conversacionais a jornadas estruturadas
O WhatsApp Flows permite criar formulários, menus e processos interativos que funcionam dentro do próprio aplicativo. Empresas podem utilizar o recurso para agendamentos, cadastros, pedidos, pesquisas, seleção de serviços e outras tarefas sem direcionar o usuário para uma página externa.
Fluxos simples podem ser criados por templates. Aplicações mais avançadas, com condições, diferentes caminhos e conexões com sistemas externos, normalmente exigem código em JSON, APIs e configuração de endpoints.
É essa camada de complexidade que o Aura pretende abstrair. A IA interpreta o produto descrito pelo usuário e organiza os componentes técnicos necessários para a execução.
O modelo pode representar uma evolução em relação aos chatbots baseados apenas em perguntas e respostas. Em vez de manter o consumidor em uma conversa longa, o sistema apresenta campos, opções e etapas mais próximas da experiência de um aplicativo.
Essa transformação também pode ganhar importância com a cobrança por mensagens. Quando cada interação passa a ter impacto direto sobre o custo operacional, reduzir etapas deixa de ser apenas uma decisão de experiência e passa a interferir na margem do produto.
Velocidade não elimina governança
A possibilidade de funcionários não técnicos criarem aplicações amplia a capacidade de experimentação das empresas. Também aumenta a necessidade de regras internas.
Produtos conectados a dados de clientes, sistemas financeiros ou APIs externas precisam ser revisados antes de chegar ao público. Permissões, armazenamento de informações, conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados e comportamento diante de falhas continuam sendo responsabilidades da empresa que opera a solução.
Nesse cenário, o papel das equipes de tecnologia tende a mudar. Em vez de executar integralmente cada demanda, esses profissionais podem assumir uma função mais ligada à governança, validação e definição de padrões.
Para a Nexxa, o Aura também amplia uma estratégia iniciada com a construção de infraestrutura para a API oficial do WhatsApp. Em abril, a companhia anunciou a aquisição da PlugLead por R$ 3 milhões, operação voltada à expansão de seu portfólio de geração e gestão de leads pelo mensageiro.
O próximo teste será verificar se a facilidade apresentada em demonstrações consegue se manter em aplicações reais, com volume, regras de negócio e integrações mais complexas.
O lançamento aponta, porém, para uma mudança relevante: no mercado brasileiro, o WhatsApp começa a deixar de ser tratado apenas como canal de atendimento. Ele passa a funcionar como ambiente para produtos, processos internos e operações comerciais completas.
Com a inteligência artificial reduzindo a barreira de desenvolvimento e a Meta modificando a estrutura de custos da plataforma, empresas terão de decidir não apenas como conversar com clientes pelo aplicativo, mas quais partes do negócio podem efetivamente operar dentro dele.
Fonte ==> EconomiaSC