Os resultados que geraram uma semana de críticas e autocríticas à campanha petista também respingaram na imprensa, acusada de ter afetado negativamente o desempenho de Lula (PT).
Já na reta final da campanha e diante dos primeiros resultados, a conversa havia virado praga para que os jornalistas voltassem ao “cercadinho” onde profissionais da mídia eram confinados e humilhados por Jair Bolsonaro (PL), que titereia o filho na corrida eleitoral enquanto cumpre pena.
Na era da IA, depois de duas décadas de redes sociais e de uma dinâmica de informação que esnoba Redações com muita facilidade, soa até otimista a atribuição aos jornais de todo esse peso nos resultados. Não à toa, rapidamente a conversa deixou a imprensa de lado para se concentrar em vídeos e viralização online.
Mas isso não diminui a responsabilidade nem a necessidade de reconhecer problemas concretos na maneira como o jornal olha não só para a esquerda mas também para a chamada direita ideológica. O descompasso entre os resultados do domingo e a cobertura evidencia a necessidade de “descer do salto” —algo cobrado, agora, dos dois presidenciáveis, mas essencial sobretudo ao jornalismo.
Eduarda Campopiano (PL) foi eleita com a maior votação deste ano para a Assembleia Legislativa de SP. Na história, ficou atrás apenas de Janaína Paschoal em 2018. Foi a terceira mais votada do país, depois de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos do PL.
Campopiano nunca havia recebido muita atenção da Folha. Seu nome aparecera cinco vezes de raspão no jornal: 4 neste ano (em texto sobre estratégia do PL com “mulheres conservadoras e candidata trans”, no ranking de políticos mais influentes do Instagram, como coadjuvante de Pavanato em confusão na USP e como piada por ter sido interrompida, na Câmara de Praia Grande, por som de flatulência) e 1 em 2022, como “escada” para comentário de Eduardo Bolsonaro.
A falha não estava apenas na incapacidade de se antecipar ao fenômeno. Para apresentá-la com seus quase 2 milhões de votos, o jornal escolheu a caricatura da “antifeminista”. Embora a própria neoeleita não saia muito do personagem, caberia ao jornalismo buscar um perfil mais complexo dela e do eleitorado que representa.
No nível nacional a coisa não foi muito melhor. Depois do resultado avassalador do PL e das mulheres do partido no Legislativo, a Folha concluiu que “a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita”, sem considerar a evolução temporal dessa presença.
O jornal ouviu duas pessoas com ideias semelhantes e avisou ao leitor/eleitor que aquilo que se desenrolava à frente de todo mundo não estava acontecendo. Apresentou, sem contraposição, a ideia de que a “identidade política dessas parlamentares pode dificultar acordos”, o que sugeria empecilhos ideológicos exclusivos de um lado.
“A reportagem tem dado tratamento desrespeitoso e equivocado a deputados da direita”, afirmou o leitor Tito Bernardi. “As pautas da deputada [eleita Campopiano] são tratadas como assuntos pitorescos, por não se encaixarem na limitada visão de mundo dos redatores da Folha.”
Bernardi diz que o jornal “e seus jornalistas não perceberam a onda da direita” e “parecem seguir uma cartilha pré-concebida” sobre os políticos desse campo, “tratando-os como estranhos, esquisitos e fora da realidade, apresentando aos leitores uma visão distorcida e parcial”. “A Folha pode e deve discordar das opiniões e propostas dos políticos. Mas para isso possui os espaços reservados para editoriais e opinião.”
Também em relação aos colunistas houve queixas. O médico Raphael Câmara, conselheiro federal de medicina pelo RJ que foi secretário de Saúde na gestão Jair Bolsonaro, escreveu carta sobre proselitismo político no corpo opinativo do jornal. “E foi provado ontem [domingo da eleição] que não reflete a opinião do Brasil. A maioria votou em Flávio. Não porque sejamos nazistas e loucos. Mas porque defendemos valores.” É possível discordar da visão política dos leitores, mas é difícil desafiar a percepção de distorção na cobertura.
Mas a atenção que faltou à direita legislativa parece ter sobrado para Flávio Bolsonaro. Alguns leitores viram uma cobertura que já o tratava como eleito. Para uma agora ex-assinante, a gota d’água foi a manchete sobre “‘redemocratização’ do país, acompanhada da linha-fina ‘diz que também ‘vai arregaçar com vagabundo’’, sem qualquer consideração”.
Em texto posterior sobre a explicação do candidato do PL para “mudar a Constituição“, o jornal afirmava que esse Bolsonaro, avatar do pai, “tem dito defender a democracia e o equilíbrio entre os Poderes”. Em outra reportagem, o candidato afirmava que “o país não vive uma democracia plena”, sem que houvesse ressalva à afirmação, feita diante de vários jornalistas.
Editorial da Folha reconheceu “fake news” na afirmação de Flávio de que o Brasil não vive uma democracia, mas a reportagem não mostrou a mesma convicção —diferentemente da certeza no caso de Nossa Senhora Aparecida. Fica a impressão de excesso de boa vontade, com contexto e questionamento insuficientes.
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Fonte ==> Folha SP