As transformações na economia global e a necessidade de repensar os modelos de gestão estiveram no centro dos debates do segundo dia do Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Entre os principais temas, especialistas e executivos discutiram os impactos da nova ordem geopolítica sobre os negócios, as oportunidades para o Brasil na atração de investimentos e os desafios das empresas para adaptar suas estruturas de liderança. As discussões também destacaram a importância do capital humano, da saúde mental e da descentralização das decisões como fatores estratégicos para a competitividade e a sustentabilidade das organizações. Em comum, os painéis apontaram que o futuro da governança dependerá tanto da capacidade de responder às mudanças externas quanto de transformar a cultura e a gestão dentro das empresas.
Antes da abertura do segundo dia de evento, conversei com a Zélia Janssen, coordenadora-geral do capítulo Santa Catarina do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que destacou que a Reforma Tributária e o aumento das discussões sobre recuperação judicial estão entre os principais temas da agenda do capítulo (como é chamado os braços do IBCG fora de São Paulo) no estado.
Com 12 anos de atuação no estado, o IBGC reúne atualmente 149 associados pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas. Para ela, o dinamismo da economia catarinense abre espaço para o fortalecimento das práticas de governança, com o objetivo de consolidar Santa Catarina como referência nacional na área.
Christopher Garman, diretor executivo para as Américas na Eurasia Group, no painel sobre o Brasil na nova desordem geopolítica, começou sua fala dizendo que a ordem geopolítica quebrou e não tem volta.
A transformação da ordem geopolítica mundial está criando novos desafios para as empresas, mas também pode abrir oportunidades para o Brasil na atração de investimentos internacionais. Essa foi uma das principais análises apresentadas durante uma palestra sobre o cenário global e seus impactos sobre a economia brasileira.
O diagnóstico aponta um contraste: enquanto investidores internacionais demonstram maior interesse pelo Brasil e pela América Latina, empresários brasileiros mantêm uma percepção mais pessimista, influenciada principalmente pelos juros elevados, pelo custo de capital e pelas incertezas econômicas.
“Quando olho o Brasil nos próximos anos, é com otimismo, considerando que temos revisões fiscais e de juros, então, se fizermos a lição de casa, temos um vento favorável para voar”.
Segundo ele, o mundo está entrando em uma fase de conflitos geopolíticos mais persistentes, maior pressão inflacionária e mudanças na alocação global de capital. Ao mesmo tempo, países com capacidade de oferecer segurança energética, alimentar e mineral tendem a ganhar relevância nas estratégias de investimento.
No painel sobre o lugar do Brasil no mundo, Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington, destacou que o posicionamento do país diante das transformações geopolíticas dependerá, principalmente, das decisões tomadas internamente.
A reorganização da economia global, marcada pelo avanço do protecionismo, pelos conflitos internacionais e pela disputa entre Estados Unidos e China, exige que o Brasil reveja suas prioridades comerciais e industriais.
Em um cenário no qual as principais potências passaram a tratar comércio, tecnologia e recursos naturais como questões de segurança nacional, o país precisa definir estratégias para proteger seus interesses e aproveitar novas oportunidades de investimento.
“Estamos em um momento de ruptura internacional. É preciso que a classe política entenda o que está acontecendo e que o Brasil não está isolado no mundo”, afirmou.
Segundo ele, uma das principais mudanças desse cenário é a crescente importância da segurança econômica, conceito que envolve políticas adotadas pelos países para reduzir vulnerabilidades em setores estratégicos, como energia, alimentos, tecnologia e matérias-primas. Esse movimento ganhou força com a guerra na Ucrânia, as tensões comerciais entre Estados Unidos e China e a reorganização das cadeias globais de abastecimento.
Para o Brasil, essa transformação representa riscos, mas também oportunidades. O país reúne vantagens competitivas em três áreas que ganharam relevância internacional: segurança alimentar, transição energética e minerais críticos. Esses setores podem ampliar o protagonismo brasileiro nas relações comerciais e na atração de investimentos, desde que sejam acompanhados por políticas capazes de transformar o potencial econômico em crescimento sustentável.
O ex-embaixador também chamou atenção para a necessidade de o Brasil organizar suas prioridades internas, especialmente diante da instabilidade política e econômica. Entre os pontos estratégicos estão a definição de políticas para exploração de minerais críticos, infraestrutura de data centers e inteligência artificial, além do fortalecimento das relações comerciais com outros países.
Na relação com os Estados Unidos, Barbosa defendeu a continuidade das negociações para reduzir barreiras tarifárias e ampliar o acesso dos produtos brasileiros ao mercado norte-americano. Para ele, essa agenda deverá permanecer entre os desafios do próximo governo.
“Temos que ver o resultado das eleições e como isso vai influenciar nesses desafios, porque são duas visões muito diferentes”, observou.
A avaliação é que o Brasil não pode depender exclusivamente das oportunidades criadas pelo cenário externo. Para ampliar sua competitividade e fortalecer sua participação nas cadeias globais de valor, será necessário avançar em estabilidade econômica, segurança energética, atração de investimentos e políticas de longo prazo.
A principal mensagem do painel é que o Brasil tem condições de ganhar relevância na nova ordem geopolítica, mas a capacidade de aproveitar esse momento dependerá das escolhas estratégicas feitas dentro do próprio país.
A relação entre saúde, capital humano e desempenho empresarial esteve no centro de um painel conduzido por Alessandra Lotufo, managing director da Afferolab, e Jeane Tsutui, CEO do Grupo Fleury. O debate destacou a importância de incorporar o bem-estar dos colaboradores às estratégias de governança corporativa, considerando seus impactos sobre a produtividade e a sustentabilidade dos negócios.
“Quando olhamos a produtividade das pessoas, precisamos entender o nível de vida que a empresa tem, ou seja, estão todos bem?”, questionou Alessandra.
Para Jeane, a gestão do capital humano também deve orientar as decisões de investimento das organizações. A executiva ressaltou que fatores como cultura organizacional, saúde mental e comunicação influenciam diretamente a capacidade das empresas de alcançar resultados consistentes.
“É muito importante olhar para a cultura da empresa. Com o estresse do dia a dia, é preciso considerar o propósito do negócio, e quanto a saúde mental e comunicação impactam para as coisas funcionarem no curto, médio e longo prazo”, afirmou.
No painel sobre o lado humano da transformação organizacional, Maurício Rodrigues, presidente da divisão agrícola da Bayer na América Latina, abordou os desafios da reestruturação das empresas, especialmente a redução dos níveis hierárquicos e a descentralização das decisões. Segundo o executivo, uma das principais barreiras está na mudança da relação entre liderança e poder.
“A questão é como auxiliar esses líderes, que podem abrir portas para as pessoas tomarem decisões. No entanto, teoria e prática são complexas”, destacou.
Como exemplo, ele apresentou a experiência da Bayer, que passou por uma revisão de sua estrutura organizacional para reduzir a burocracia e ampliar a autonomia das equipes. Segundo ele, a companhia chegou a reunir mais de 1 mil regras internas, o que dificultava a agilidade das decisões em uma operação com cerca de 90 mil funcionários.
A transformação, no entanto, exigiu adaptações às particularidades culturais e organizacionais dos diferentes mercados em que a empresa atua.
“Tivemos que encontrar fórmulas distintas para implementar nos vários países em que estamos presentes. É muito diferente descentralizar o poder hierárquico nos Estados Unidos e no México em relação à Argentina e ao Brasil, por exemplo”, explicou.
Para o executivo, esse movimento também redefine o papel das lideranças. Em estruturas menos hierarquizadas, o líder deixa de concentrar as decisões e passa a atuar principalmente como responsável por inspirar, orientar e criar condições para que as equipes tenham maior autonomia.
Fonte ==> EconomiaSC