A Folha testou versões paraguaias das “canetas emagrecedoras” vendidas clandestinamente no Brasil. O procedimento que colocou as substâncias à prova também acabou testando o jornal.
A reportagem foi ao ar no site no dia 4: “Canetas emagrecedoras do Paraguai têm princípio ativo equivalente ao do Mounjaro, mostra análise da Unicamp“. Havia ressalvas importantes, algumas já na linha-fina, subtítulo da reportagem: “Análise verificou concentração e estrutura molecular, mas não pureza, eficácia e segurança” e “Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, diz que ter a mesma substância não significa que produtos sejam iguais”. Ainda assim, elas eram insuficientes, e o título soava mais inadequado quanto mais a leitura avançava.
Um dos principais alertas ficou enterrado depois do 20º parágrafo: “A amostra de Gluconex (…) apresentou concentração muito maior que a informada pelo fabricante” e “quem utiliza esse medicamento corre risco”, segundo José Luiz da Costa, professor de toxicologia e coordenador do CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) da Unicamp, que fez os testes.
Outros especialistas chamavam a atenção, no texto, para eventuais problemas de composição e armazenagem. Advogados alertavam para risco jurídico e crimes que poderiam ser associados à venda e à compra dos produtos. Nesse ponto, havia ruído em relação ao Manual da Redação, segundo o qual “a Folha não admite que seus profissionais pratiquem ato ilegal, antiético ou desonesto para obter informações”. O jornal responde que “todo o processo foi desenhado com assessoria jurídica”.
O final do texto informava que, segundo a Anvisa, análises laboratoriais independentes não substituem o processo completo.
É possível considerar que o teste seja de interesse público: se esses produtos já são vendidos a rodo e sem controle, vale averiguar a composição deles. Nesse caso, porém, o título já deveria deixar claros riscos e limitações. O jornal pode, cinicamente, abraçar a ideia de que não é responsável pela distorção feita nas redes sociais. Mas estamos em 2026.
Outro ponto, anterior, é a relativa falta de sentido em testar só a presença da substância, se a decisão sanitária não se limita a esse aspecto, como o texto informa.
A chefia da Redação da Folha afirma que “a reportagem investigava se os produtos paraguaios, cujo contrabando para o Brasil é crescente, tinham de fato tirzepatida e se havia mistura com semaglutida”. “O objetivo foi fornecer ao leitor informação relevante, que não estava disponível. Os riscos estão claramente identificados no texto e, na edição online, destacados no alto. Não dizemos que os produtos são equivalentes, mas que o princípio ativo (tirzepatida) encontrado num produto é equivalente ao do outro (não igual). A Anvisa sabia dos testes e afirmou que eles eram valiosos. O laboratório Eli Lilly foi ouvido durante o processo e sua posição foi registrada no texto.”
Após a repercussão da publicação, a Anvisa emitiu nota com um “NÃO” em caixa-alta: “Canetas do Paraguai NÃO demonstraram equivalência com medicamentos registrados no Brasil”.
Consultada sobre o termo “valiosos”, a assessoria da Anvisa afirma que as informações do teste se inserem num “conjunto de contribuições para o entendimento do risco”. “A resposta da Anvisa não indicou que este resultado em específico fosse valioso. Até porque a Anvisa não havia tido acesso aos dados, metodologia e demais detalhes.”
O laboratório da Unicamp também emitiu nota crítica ao jornal. A Folha afirma tê-lo consultado a respeito da formulação do título, o que o laboratório confirma, mas diz discordar do uso de “equivalente”, segundo Gabriel Cordeiro, gestor de educação e difusão do conhecimento da instituição. “O conteúdo do corpo da matéria está correto. O problema ficou no título, que infelizmente acaba induzindo o público que lê apenas a manchete a ter uma compreensão errada do caso.”
Para a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) e a Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), que publicaram nota conjunta, o problema também estava na “expressão ‘princípio ativo equivalente ao do Mounjaro’, interpretação que não seria possível sem outros critérios”.
Já a Eli Lilly, dona do Mounjaro, afirma que “um veículo de extrema relevância e credibilidade como a Folha de S.Paulo, ao chancelar erroneamente a ‘equivalência’ de um produto sem registro no país, pode incentivar leitores a consumir medicamentos de procedência duvidosa e potencialmente perigosos”.
Nas redes, o título da Folha foi usado como confirmação da segurança por vendedores e até políticos que se promovem em cima de gargalos reais —alto custo e dificuldade de acesso aos remédios. Para a Anvisa, “o título da matéria e a afirmação de que os princípios ativos eram equivalentes (incorretos do ponto de vista farmacológico) motivaram a circulação dos conteúdos desinformativos, induzindo a população ao erro”.
Neste sábado (11), o jornal publicou um vídeo em que destaca as limitações do teste e ouve novamente o laboratório e a SBEM. Nos comentários desse novo vídeo, muita gente (e talvez alguns robôs) defende a soberania da Dinavisa, a vigilância sanitária do Paraguai, agradece ao país vizinho por ter perdido dezenas de quilos e questiona os interesses da indústria farmacêutica.
Uma questão menor, mas ainda assim relevante, é por que chamar esses produtos paraguaios de “caneta”, se eles não vêm com os aplicadores que deram o apelido aos remédios originais. A própria reportagem do dia 4 informa que “o paciente precisa aspirar a dose com uma seringa, o que aumenta o risco de erros de dosagem e pode levar a complicações”. Chamar esses produtos que vêm em ampolas de “canetas” em texto jornalístico não ajudaria também a subsidiar a equivalência pleiteada por quem os vende ilegalmente?
A Secretaria de Redação da Folha responde que “‘caneta’ virou um sinônimo, no uso popular, para as substâncias emagrecedoras; no decorrer do texto, inclusive com fotos, fica clara a diferença”.
Fonte ==> Folha SP