Geração Ansiosa

Parte 4 – Aprender a viver num mundo que não vai desacelerar

Cheguei ao último texto desta série com uma convicção um pouco diferente daquela que talvez fosse esperada depois de tudo o que escrevi até aqui, não acredito que a saída para a ansiedade contemporânea esteja em tentar desacelerar o mundo.

O mundo não vai desacelerar porque estamos cansados.

A tecnologia continuará avançando. A informação provavelmente circulará ainda mais rápido. O trabalho continuará sofrendo transformações. Novas ferramentas reduzirão o tempo necessário para tarefas que hoje ainda ocupam horas. A inteligência artificial já começou a modificar profissões, relações de trabalho, educação e produção de conhecimento. Daqui a alguns anos, parte do que atualmente consideramos rápido talvez pareça lento.

Podemos criticar esse processo, estabelecer limites individuais e questionar seus excessos. Tudo isso é legítimo. Mas esperar que o ambiente externo volte a uma velocidade confortável para então encontrarmos algum equilíbrio interno parece pouco realista.

A questão, portanto, muda.

Como viver num mundo acelerado sem precisar funcionar acelerado o tempo inteiro?

Não tenho uma resposta única para isso. Depois de anos trabalhando com pessoas, desconfio cada vez mais das respostas que cabem em uma frase.

Ansiedade não é uma coisa só

Ao longo dos três artigos anteriores utilizei a palavra ansiedade muitas vezes. Antes de concluir, preciso retornar a ela porque existe um risco quando usamos o mesmo nome para experiências muito diferentes.

Ansiedade pode ser uma reação normal diante de uma situação incerta. Pode aparecer antes de uma entrevista, uma cirurgia, uma viagem, uma prova, uma decisão importante. Pode fazer parte de um período difícil da vida. Pode também assumir intensidade, frequência e duração capazes de produzir sofrimento importante e comprometer trabalho, sono, relações e atividades cotidianas.

Não deveríamos colocar tudo isso no mesmo lugar.

Também não considero adequado transformar qualquer desconforto em patologia.

A vida produz tensão.

Há momentos em que teremos medo. Outros em que dormiremos mal porque alguma coisa importante está acontecendo. Perderemos pessoas, empregos, relações. Teremos dúvidas sobre decisões que tomamos. Envelheceremos. Pessoas que amamos envelhecerão.

Nenhuma técnica deveria prometer retirar da existência aquilo que pertence à própria existência.

O problema começa em outro ponto.

Começa quando a antecipação ocupa tanto espaço que o acontecimento real se torna quase secundário. Quando a pessoa sofre várias vezes pelo mesmo problema, antes que aconteça, enquanto acontece e depois, ao reconstruí-lo mentalmente.

Às vezes o problema nem acontece.

O sofrimento antecipado aconteceu mesmo assim.

Conhecimento ajuda, mas existe um limite

Nunca tivemos tanto acesso à informação sobre saúde mental.

Sabemos sobre ansiedade, estresse, trauma, meditação, respiração, sono, atividade física, alimentação, neurotransmissores, sistema nervoso. Termos que há algumas décadas pertenciam quase exclusivamente a profissionais especializados entraram nas conversas comuns.

Isso trouxe benefícios.

Pessoas passaram a reconhecer sintomas, procurar ajuda e falar sobre sofrimento psíquico com menos vergonha. Questões antes escondidas começaram a ser discutidas dentro das famílias e dos ambientes profissionais.

Mas apareceu também um fenômeno curioso.

É possível saber muito sobre ansiedade e continuar profundamente ansioso.

Conheço pessoas capazes de explicar intelectualmente aquilo que sentem com enorme precisão. Sabem de onde vem determinado comportamento, reconhecem os gatilhos, conhecem a história familiar e compreendem as relações envolvidas.

E continuam repetindo determinados padrões.

Isso não invalida o conhecimento. Apenas mostra seu limite.

Compreender alguma coisa não significa necessariamente ter desenvolvido capacidade para agir de outra maneira diante dela.

Há uma diferença entre conhecimento e experiência.

Essa diferença sempre me interessou.

O corpo precisa participar da mudança

Quando uma pessoa vive durante muito tempo em estado de vigilância, dizer a ela que deveria relaxar acrescenta muito pouco.

Provavelmente ela já sabe.

Talvez queira desesperadamente fazer isso.

O problema é justamente não conseguir.

Por isso tenho insistido, ao longo desta série, na necessidade de observar o corpo, a atenção e os estados internos sem reduzir tudo ao pensamento.

Isso não significa abandonar a razão. Muito menos substituir abordagens psicológicas ou médicas por técnicas corporais, hipnóticas ou contemplativas.

Significa compreender que somos um organismo inteiro.

Uma mudança começa a ganhar consistência quando deixa de existir apenas como compreensão e passa a fazer parte da experiência.

Podemos estudar durante horas o que significa estar presente e continuar verificando o telefone a cada dois minutos.

Podemos conhecer exercícios respiratórios e nunca perceber como respiramos quando estamos sob pressão.

Podemos defender a importância do silêncio e preencher imediatamente qualquer minuto vazio.

Nesse ponto, teoria e vida começam a se separar.

Não há nada de extraordinário nisso. O ser humano sempre foi capaz de defender racionalmente uma coisa e fazer outra.

Eu inclusive.

Talvez reconhecer essa distância seja mais útil do que tentar escondê-la.

A dificuldade de ficar consigo mesmo

Existe um aspecto da aceleração contemporânea sobre o qual ainda refletimos pouco.

O excesso de estímulo não apenas ocupa nosso tempo. Ele também reduz os momentos em que ficamos sem alguma coisa externa disputando nossa atenção.

Isso parece irrelevante até tentarmos permanecer em silêncio.

Algumas pessoas sentem desconforto quase imediatamente.

Pegam o celular sem perceber.

Abrem uma tela.

Procuram alguma coisa.

Não necessariamente porque exista algo importante para ver. O gesto já se tornou automático.

Talvez devêssemos perguntar o que acontece nesse pequeno intervalo entre sentir o impulso e pegar o aparelho.

Às vezes é tédio.

Em outras situações pode haver inquietação, solidão, hábito, necessidade de novidade ou simplesmente condicionamento produzido por milhares de repetições.

Não precisamos transformar todo uso de tecnologia em sintoma psicológico.

Mas também não deveríamos perder a curiosidade sobre nossos automatismos.

Quando uma escolha é repetida tantas vezes que já não percebemos que estamos escolhendo, alguma coisa merece ser observada.

Presença não é ausência de pensamento

No artigo anterior falei sobre presença. Quero retomar o conceito porque ele facilmente se transforma em idealização.

Estar presente não significa manter a mente vazia.

Pensamos.

Antecipamos.

Lembramos.

Planejamos.

Tudo isso faz parte de nossa capacidade humana e seria absurdo tentar eliminar justamente aquilo que nos permite construir o futuro.

A questão está na relação que estabelecemos com esses processos.

Planejar o amanhã é diferente de passar o dia vivendo mentalmente nele.

Recordar uma experiência é diferente de permanecer indefinidamente dentro dela.

Pensar sobre um problema é diferente de repetir o mesmo pensamento dezenas de vezes esperando que a repetição produza uma solução nova.

Presença, então, não exige abandonar passado e futuro.

Exige conseguir retornar.

Essa palavra talvez seja mais adequada do que controle.

Retornar.

Perceber que a atenção foi levada e trazê-la novamente.

Reconhecer que o corpo está excessivamente ativado e permitir que encontre outro ritmo quando isso for possível.

Notar que um pensamento começou a ser tratado como certeza e recuperar a possibilidade de examiná-lo.

Não se trata de conseguir fazer isso sempre.

Ninguém consegue.

Trata-se de não perder completamente o caminho de volta.

Quando “sou ansioso” começa a definir uma vida

Existe ainda uma questão que encontro com frequência e que considero particularmente delicada.

A ansiedade pode permanecer tanto tempo na vida de alguém que deixa de ser percebida apenas como estado.

Passa a fazer parte da identidade.

“Eu sou ansioso.”

Não tenho a pretensão de corrigir a maneira como alguém fala sobre si. O que me interessa é aquilo que essa frase pode carregar.

Quando digo “estou ansioso”, existe implicitamente a possibilidade de que em outro momento eu não esteja.

Quando digo “sou ansioso”, posso começar a organizar minha história em torno dessa característica.

Recordo as situações em que a ansiedade apareceu. Prevejo que aparecerá novamente. Evito experiências porque “sei como sou”. Aos poucos, um estado recorrente pode começar a estabelecer fronteiras para a própria vida.

Não basta trocar uma palavra para mudar isso.

Mas a linguagem revela alguma coisa.

Em terapia, interessa me descobrir quando uma pessoa começou a acreditar que aquilo que sente é necessariamente aquilo que ela é.

Nem sempre encontramos uma resposta precisa.

Talvez nem seja necessário.

O importante é recuperar uma diferença que parece pequena, mas não é, estados mudam.

O terapeuta também precisa conhecer seus limites

Há muitos anos trabalho com estados de consciência, Hipnose Não Verbal, Magnetismo Humano, Fascinação Mental e outras formas de intervenção que não dependem exclusivamente da palavra.

Confio no trabalho que desenvolvo porque o estudo, pratico e observo seus efeitos.

Justamente por isso não preciso atribuir a essas técnicas poderes que elas não possuem.

Nenhuma abordagem séria deveria prometer resolver toda ansiedade.

O terapeuta precisa saber intervir, mas precisa também saber quando não intervir sozinho.

Precisa reconhecer situações que exigem avaliação médica, psicológica ou psiquiátrica. Precisa entender que sintomas aparentemente emocionais podem ter componentes orgânicos. Precisa saber trabalhar ao lado de outros profissionais quando necessário.

Isso não diminui sua autoridade.

Para mim, faz parte dela.

Durante muito tempo, algumas práticas terapêuticas alternativas cometeram o erro de se fortalecer atacando a medicina ou a psicologia convencional. Do outro lado, também houve quem descartasse qualquer experiência que não se encaixasse imediatamente nos modelos predominantes.

Nunca me interessei muito por essa disputa.

Interessa-me aquilo que pode ser estudado, observado, discutido e utilizado com responsabilidade.

Se uma técnica ajuda, quero compreender melhor por quê.

Se não ajuda, preciso reconhecer.

Se ainda não sabemos explicar determinado fenômeno, prefiro deixar a pergunta aberta a preencher o espaço com uma explicação conveniente.

Talvez a autonomia comece aí

Depois de escrever sobre tecnologia, pandemia, pressão profissional, corpo, atenção, Hipnose Não Verbal, Magnetismo, Fascinação e presença, seria tentador terminar propondo um método.

Não vou fazer isso.

Seria contraditório transformar um fenômeno complexo em uma receita no último artigo.

Há pessoas que precisarão de tratamento.

Outras precisarão reorganizar a maneira como trabalham.

Algumas descobrirão que dormem pouco há anos e passaram a considerar exaustão um estado normal.

Outras precisarão rever relações, excesso de estímulos, consumo de informação ou a maneira como ocupam cada minuto disponível.

E haverá quem precise simplesmente admitir que não está conseguindo lidar sozinho com aquilo que sente.

Os caminhos serão diferentes.

Existe, porém, uma questão que atravessa todos eles.

Autonomia não é controlar tudo o que acontece dentro de nós.

Se fosse, ninguém seria verdadeiramente autônomo.

Talvez autonomia seja desenvolver condições para reconhecer um estado sem imediatamente se confundir com ele. Perceber o que está acontecendo, entender quando é possível agir sozinho e quando precisamos de ajuda, conhecer nossos automatismos e recuperar alguma possibilidade de escolha antes de simplesmente reagir.

Não parece uma conquista grandiosa.

Talvez não seja.

Mas num mundo construído para disputar nossa atenção, antecipar nossos desejos e manter nossa mente continuamente ocupada, recuperar alguns segundos entre o estímulo e a resposta já começa a ter outro significado.

E essa é uma habilidade que pode, e deve, ser desenvolvida.

A chamada geração ansiosa não precisa ser definida pela ansiedade.

Também não acredito que vá simplesmente deixar de senti la.

Entre esses dois extremos existe um território muito mais interessante.

É nele que continuamos aprendendo a viver.

murillo c freitas

Murillo C. Freitas

Contatos:

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