Neste domingo (27) comemora-se o Dia Mundial do Turismo. A data costuma ser celebrada com balanços sobre o crescimento do setor, empregos e sua contribuição para o desenvolvimento. Neste ano, o Brasil tem razões especialmente boas para comemorar. O turismo faturou R$ 143,1 bilhões apenas no primeiro semestre deste ano, um crescimento de 3,5% e o melhor resultado para o período em 15 anos.
Os números impressionam. Já a influência correspondente a eles, nem tanto.
Quando o país discute reforma tributária, aeroportos, mobilidade urbana, segurança pública, política ambiental ou relações internacionais, raramente o turismo está entre os primeiros setores chamados à mesa. A explicação parece simples: cada um desses temas pertence a uma área específica da administração pública e o turismo tem seu próprio ministério, suas políticas e suas entidades representativas. A economia, porém, não funciona com a mesma organização das repartições públicas.
Uma decisão sobre conectividade aérea interfere na capacidade de uma cidade atrair eventos e investimentos. A segurança modifica a percepção internacional de um destino. As relações diplomáticas facilitam ou dificultam a circulação de pessoas. Mobilidade, saneamento, conectividade digital e preservação ambiental influenciam a experiência de quem visita uma cidade e, ao mesmo tempo, a qualidade de vida de quem nela reside. Em todos esses casos, o turismo está presente, mas não costuma ser chamado pelo nome.
Não é uma inquietação exclusivamente brasileira. Em março, Rafat Ali, fundador da Skift3, chamou atenção para o que definiu como um déficit de poder no setor de viagens norte-americano. Seu argumento é que um setor que movimenta trilhões de dólares mantém uma estrutura de representação desenhada para influenciar o Congresso, enquanto decisões fundamentais para sua competitividade passaram a ser tomadas pelo Executivo (e os EUA perderam 5,5% de turistas em 2025).
No Brasil, o movimento é praticamente inverso. Enquanto cresce o poder do Congresso sobre o Orçamento público, diminui o espaço do Executivo para estabelecer prioridades e coordenar políticas de longo prazo. No turismo, essa transformação é particularmente visível.
Dados da Central das Emendas mostram 2.442 emendas destinadas ao setor e R$ 5,21 bilhões empenhados. O crescimento recente impressiona: o valor anual empenhado passou de cerca de R$ 80 milhões em 2022 para R$ 1,5 bi em 2025. Mas dinheiro destinado não é sinônimo de política pública. A multiplicação de emendas transforma parte dos recursos do turismo em milhares de decisões fragmentadas, sem que necessariamente respondam a uma estratégia nacional para a atividade.
É uma situação paradoxal. O turismo ganhou espaço no orçamento parlamentar justamente quando precisa participar de decisões muito maiores do que o seu próprio orçamento: infraestrutura, conectividade, tributação, relações exteriores, segurança, meio ambiente e desenvolvimento urbano. Ganhou emendas, mas não ganhou poder.
Talvez o problema esteja menos na importância econômica do turismo e mais na forma como insistimos em enxergá-lo.
Um passageiro que desembarca no Brasil para participar de um congresso movimenta muito mais que o setor de eventos. O estudante estrangeiro que permanece seis meses no país aluga um imóvel, frequenta restaurantes, consome cultura e entretenimento, além de gastar com sua manutenção cotidiana. O mesmo ocorre para quem viaja para visitas familiares em outras cidades, realizar tratamentos médicos, trabalhar temporariamente ou assistir a um grande evento esportivo ou musical.
Há uma economia formada pela circulação dessas pessoas que ultrapassa as fronteiras convencionais do turismo. Internacionalmente, essa abordagem é tratada como “visitor economy”. Em português, “economia do visitante” (ou da visitação): uma maneira de compreender conjuntamente turismo, eventos, hospitalidade, mobilidade, economia criativa, educação internacional, negócios e outras atividades estimuladas pela presença temporária de pessoas em determinado território.
Não se trata de inventar um novo nome para o turismo, mas sim de enxergar (e mensurar) uma economia que as tradicionais classificações institucionais fragmentaram.
A diferença não é apenas semântica. Se a circulação de visitantes produz efeitos sobre diferentes setores da economia, sua competitividade depende de políticas formuladas muito além do Ministério do Turismo. Isso exige também outra capacidade de representação. Setores econômicos relevantes não são lembrados apenas quando seus recordes são anunciados; participam das decisões que criam ou aprimoram as condições para que esses resultados aconteçam.
Por isso, neste Dia Mundial do Turismo, talvez valha comemorar menos um número e fazer uma pergunta: quem representa a economia do visitante quando o Brasil decide seu futuro? O país já sabe contar quem chega. Falta aprender a contar e considerar tudo o que se move quando as pessoas chegam.
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Fonte ==> Folha SP