Quando a escuta transforma pessoas, relações e empresas

Sylvia Oliveira segura o livro “O Poder da Escuta”, obra sobre escuta, relações humanas e transformação nas organizações.

Vivemos em uma época em que todos querem falar, opinar, responder e ser percebidos. Mas quantos estão verdadeiramente dispostos a escutar?

No ambiente de trabalho, essa pergunta ganha uma dimensão ainda maior. Quantas vezes um colaborador disse que estava bem enquanto seu comportamento demonstrava o contrário? Quantas vezes a queda de desempenho, o isolamento, os conflitos frequentes ou uma mudança repentina de atitude surgiram antes de um afastamento, porém estas situações foram interpretados apenas como falta de comprometimento?

Talvez o problema não esteja na ausência de sinais. Muitas vezes, está na ausência de escuta.

Escutar é muito mais do que permanecer em silêncio enquanto o outro fala. A escuta verdadeira exige presença, atenção e disposição para compreender aquilo que está sendo dito, e muitas vezes também aquilo que ainda não conseguiu ser colocado em palavras.

Nas organizações, essa capacidade deixa de ser apenas uma habilidade relacional e passa a ser uma competência de liderança e gestão.

Um líder que escuta conhece melhor sua equipe. Percebe tensões antes que elas se transformem em conflitos, identifica dificuldades antes que comprometam resultados e cria condições para que as pessoas possam apresentar ideias, dúvidas, erros e preocupações sem medo de exposição ou julgamento.

É nesse ambiente que também se fortalece a segurança psicológica.

Isso não significa que líderes devam assumir o papel de psicólogos ou terapeutas. Significa reconhecer que pessoas não deixam suas emoções do lado de fora quando entram na empresa.

A forma da organização trabalho, a construção das relações e como a liderança se comunica interfere diretamente na experiência de quem trabalha.

A escuta também tem impacto sobre os negócios. Empresas que não escutam seus colaboradores podem perder talentos, criatividade e capacidade de inovação. Empresas que não escutam seus clientes deixam de perceber mudanças de comportamento e novas necessidades. E organizações que não escutam os sinais de sua própria cultura podem descobrir seus problemas somente quando eles já se transformaram em crises.

Em um mundo cada vez mais mediado por inteligência artificial, automação, indicadores e respostas instantâneas, talvez uma das competências mais sofisticadas continue sendo profundamente humana: estar verdadeiramente presente diante do outro.

Minha trajetória na medicina, na saúde mental, no mundo corporativo e na escrita me ensinou algo essencial: por trás de muitos sintomas existem histórias que precisam encontrar espaço para serem contadas. E, muitas vezes, antes de oferecer uma resposta, precisamos aprender a fazer uma pergunta e permanecer disponíveis para ouvir a resposta.

Foi dessa compreensão que nasceu também “O Poder da Escuta”, meu primeiro livro solo.

No próximo 6 de setembro, às 10 horas, na Bienal do Livro de São Paulo, terei a alegria de apresentá-lo aos leitores. Mais do que o lançamento de uma obra, esse momento representa a continuidade de uma convicção que atravessa minha trajetória profissional e pessoal: a palavra pode transformar, mas a transformação muitas vezes começa antes dela.

Começa quando alguém encontra, do outro lado, quem esteja verdadeiramente disposto a escutar.


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