Por que a direita nacionalista cresce no Reino Unido

Por que a direita nacionalista cresce no Reino Unido

O partido da direita nacionalista Reform UK foi o grande vencedor das eleições locais realizadas no último dia 7 no Reino Unido, conquistando mais de 1,4 mil cadeiras em vários conselhos municipais e tomando até o controle de redutos trabalhistas que resistiam à direita desde o fim da Primeira Guerra Mundial, segundo informou o líder da legenda, Nigel Farage. O resultado do pleito deixou o primeiro-ministro Keir Starmer, do Partido Trabalhista, lutando pela sobrevivência política.

O Reform UK, de Farage, um forte defensor do Brexit e aliado declarado do presidente dos EUA, Donald Trump, conquistou nessas eleições o controle de cidades como Sunderland, no norte da Inglaterra, conhecida por ser um forte reduto eleitoral dos trabalhistas. Os habitantes de Sunderland votaram em peso na legenda de direita, que conquistou maioria absoluta no conselho municipal local, responsável pela administração da cidade. O mesmo movimento aconteceu nas cidades de Hartlepool, Durham e dezenas de outras que há gerações votavam nos Trabalhistas.

“Estamos assistindo a uma mudança histórica na política britânica”, declarou Farage em discurso a apoiadores na cidade de Chelmsford após as vitórias.

“Sempre fomos acostumados a pensar em política em termos de esquerda e direita. O que o Reform consegue fazer é vencer em áreas que sempre foram conservadoras, mas também estamos provando de forma contundente que podemos vencer em áreas que o Partido Trabalhista dominou, francamente, desde o fim da Primeira Guerra Mundial”, acrescentou o líder de direita.

No total, o Reform UK conquistou 1.454 representantes locais e o controle de 14 administrações. A legenda tomou o controle de territórios que antes eram base eleitoral tanto dos Conservadores quanto dos Trabalhistas. Entre os redutos perdidos pelos Conservadores estão o condado de Suffolk, área com forte inclinação à direita que estava sob controle estável dos “Tories” nos últimos 20 anos.

Nesta eleição, o Partido Trabalhista perdeu 1.498 representantes locais e o controle de 38 conselhos municipais. O Partido Conservador perdeu 563 representantes locais e o controle de seis conselhos.

No País de Gales, o Partido Trabalhista deixou de ser a maior força do Parlamento local pela primeira vez desde a criação do legislativo galês, em 1999, após o avanço da legenda de centro-esquerda Plaid Cymru e do Reform UK, agora as duas principais forças do legislativo local. Na Escócia, o Partido Nacional Escocês (SNP) manteve a maior bancada do Parlamento local (58 cadeiras), mas o Reform UK registrou sua primeira grande entrada na política escocesa e empatou com os trabalhistas na segunda posição, ambos com 17 cadeiras.

Starmer reconheceu a dura derrota de sua legenda nessas eleições. “Os resultados são duros, muito duros, e não há como suavizá-los”, disse o premiê após o pleito. “Os eleitores enviaram uma mensagem sobre o ritmo das mudanças, sobre como querem ver suas vidas melhoradas.”

Após a grande derrota parlamentar, políticos trabalhistas passaram a pedir a saída do premiê da liderança do Partido Trabalhista. “Starmer não pode nos liderar para uma próxima eleição sem mudanças urgentes”, declarou a deputada Louise Haigh.

O professor de relações internacionais Ben Ansell, da Universidade de Oxford, disse à emissora NBC News que, se Starmer chegar às próximas eleições gerais como premiê do Reino Unido, isso surpreenderia a maioria dos analistas políticos. “E provavelmente surpreenderia a maioria dos membros do Partido Trabalhista neste momento”, acrescentou.

Um partido em ascensão

Em maio de 2025, o Reform UK já havia dado um sinal de sua força eleitoral: nas eleições locais daquele ano, o partido conquistou 677 cadeiras (41% dos postos em disputa) se tornando a maior legenda em 10 dos 23 conselhos municipais onde havia cadeiras em jogo.

O Reform UK nasceu de uma reorganização da direita britânica após o processo do Brexit. Ele é uma remodelação do chamado Partido do Brexit, criado em 2018 por Farage para pressionar o então governo da premiê Theresa May pela saída definitiva do Reino Unido da União Europeia (UE). A ideia era também explorar a insatisfação de parte do eleitorado britânico com os conservadores.

Com o Brexit formalmente concluído em 2020, sob o governo do então premiê Boris Johnson, o partido perdeu sua principal bandeira original. Em 2021, foi rebatizado oficialmente para o nome Reform UK, numa tentativa de ampliar sua atuação para além da União Europeia e se apresentar como alternativa ao sistema político tradicional britânico.

A partir daí, a legenda passou a concentrar sua agenda em temas como imigração, custo de vida, impostos, críticas às metas climáticas progressistas e reforma das instituições públicas. O objetivo de Farage foi atrair eleitores descontentes tanto com os conservadores quanto com os trabalhistas.

A primeira tentativa de projeção local ocorreu nas eleições gerais de 2019. Contudo, a legenda não conseguiu eleger deputados naquela ocasião. A segunda tentativa foi nas eleições gerais de julho de 2024. Desta vez, o Reform UK obteve 14% dos votos nacionais, elegendo cinco deputados para Câmara dos Comuns, a câmara baixa do Parlamento britânico. Atualmente, após vencer algumas eleições suplementares, a legenda ampliou sua quantidade de cadeiras para 8.

O crescimento eleitoral do Reform UK nas últimas eleições ocorreu em paralelo a uma crescente mobilização popular nas ruas britânicas contra a imigração ilegal, tema que tem dominado o debate público. Em setembro do ano passado, um protesto contra a imigração ilegal, organizado pelo ativista conservador Tommy Robinson em Londres, reuniu cerca de 150 mil pessoas – uma das maiores manifestações de direita da história moderna britânica. O Reform UK não participou da organização dos protestos, mas navegou na onda de insatisfação que os alimentou.

Neste final de semana, Robinson novamente mobilizou uma multidão nas ruas de Londres para protestar contra a imigração, a insegurança e o governo de Starmer.

Imigração, crime e economia são o combustível eleitoral do Reform UK

O Reform UK tem se alimentado do conjunto de problemas que o governo trabalhista do premiê Starmer não conseguiu reverter.

Um dos principais é justamente a imigração ilegal. Dados baseados em informações do próprio governo mostram que as travessias clandestinas de imigrantes pelo Canal da Mancha, que separa o sul da Inglaterra do norte da França, chegaram a 41.472 pessoas em 2025 – um aumento de 13% em relação a 2024 e próximo do recorde de 45.774 registrado em 2022, quando o país ainda estava sob controle dos Conservadores.

Cerca de 31 mil imigrantes solicitantes de asilo ainda vivem em hotéis custeados pelo Estado, número 4% maior do que quando o Partido Trabalhista assumiu o poder em 2024, segundo a imprensa britânica.

Os pedidos de asilo permanecem em níveis recordes: foram mais de 100 mil em 2025. Em 2024 chegaram a 108 mil. O governo Starmer prometeu acabar com o pagamento de hotéis para abrigar imigrantes solicitantes de asilo até 2029. Segundo informações baseadas em dados do governo, esses aluguéis de hotéis já custaram 2,1 bilhões de libras (R$ 14 bilhões) aos cofres públicos entre os anos de 2024 e 2025.

A pauta defendida pelo Reform UK neste campo é a da deportação massiva de imigrantes ilegais. Farage promete deportar, caso seu partido alcance maioria no Parlamento nas eleições gerais de 2029 e ele se torne premiê, 22,5 mil imigrantes ilegais por mês, bem como vetar benefícios sociais para a maioria deles.

“O Reform UK está reunindo um conjunto significativo e distinto de eleitores que compartilham preocupações intensas com a imigração, tanto ilegal quanto legal”, disse Matthew Goodwin, professor de ciência política e autor de obras sobre populismo de direita na Europa, à revista Epoch Times.

Crime em Londres, outro combustível

O crime em geral caiu na Inglaterra e no País de Gales. Segundo o Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS), a polícia registrou cerca de 5,2 milhões de ocorrências criminosas no ano encerrado em dezembro de 2025, queda de 2% em relação ao ano anterior.

Contudo, em Londres, a capital do Reino Unido, os crimes com faca chegaram a 16.344 ocorrências entre os anos de 2024 e 2025, o maior número já registrado na cidade, acima das 15.016 registradas no ciclo anterior, segundo o Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS). A alta deste tipo de crime na capital tem gerado medo no eleitor, segundo a imprensa britânica.

Além desses crimes em Londres, os crimes de ódio também preocupam a população, principalmente a judaica. Os atos antissemitas dispararam a 3,7 mil ocorrências no Reino Unido em 2025 – o segundo maior total anual já registrado, segundo a entidade de proteção aos judeus Community Security Trust (CST).

O crime mais grave de antissemitismo ocorreu em 2 de outubro de 2025, durante o Yom Kippur, o dia mais sagrado do calendário judaico. Um terrorista jogou um carro contra fiéis do lado de fora da sinagoga Heaton Park Hebrew Congregation, em Manchester, e depois atacou pessoas com uma faca. Melvin Cravitz, de 66 anos, e Adrian Daulby, de 53, foram mortos. Outras três pessoas ficaram gravemente feridas. O terrorista, identificado como Jihad Al-Shamie, nascido na Síria, foi morto pela polícia no dia do ataque. Ele declarou lealdade ao Estado Islâmico (EI) antes de realizar o ataque.

O governo de Starmer classificou o episódio como “um ato perverso de terrorismo antissemita, realizado por um terrorista que declarou lealdade à ideologia distorcida do islamismo”. O ataque foi o primeiro ato terrorista antissemita com mortes desde que o Community Security Trust (CST) começou a registrar casos desse tipo, em 1984. No dia do ataque e no dia seguinte, o CST registrou 40 incidentes antissemitas em Londres em cada dia – as maiores contagens diárias de 2025.

O ataque ocorreu em um cenário de alta persistente do antissemitismo no Reino Unido desde o massacre cometido pelo Hamas em Israel, em 7 de outubro de 2023. Segundo o CST, os quatro anos com mais registros da série histórica foram 2022, 2023, 2024 e 2025.

Em 2025, foram registradas 255 prisões por crimes relacionados ao terrorismo no Reino Unido, e o número de pessoas em custódia por delitos dessa natureza chegou a 267, o maior patamar desde o início da série histórica, segundo o Counter Terrorism Policing, a polícia antiterror britânica. Em 2024, o Ministério do Interior britânico apontou que, dos detidos por crime de terrorismo no Reino Unido, 63% eram apoiadores de ideologias islâmicas radicais.

Em agosto do ano passado, meses antes do ataque, Farage lançou uma campanha de seis semanas sobre segurança pública no Reino Unido sob o slogan “A Grã-Bretanha está sem lei” (Britain is Lawless), ligando diretamente criminalidade em geral à imigração ilegal e prometendo reduzir os índices de crime pela metade caso chegue ao poder.

Em carta enviada a eleitores em dezembro, meses após o ataque, Farage escreveu que “milhares de jovens imigrantes ilegais estão morando em hotéis de Londres às custas do contribuinte e deixados livres para circular pelas ruas.”

O partido propõe, caso chegue ao poder, recrutar 30 mil novos policiais, restaurar o uso amplo da chama “Stop and Search” (abordagem policial preventiva), criar tribunais especiais para tramitar de forma rápida casos mais graves e alugar vagas em presídios no exterior para enviar detentos – incluindo em El Salvador. A deportação de imigrantes criminosos também está na pauta.

Economia em baixa e crescimento lento

Os problemas que abalam a economia britânica são outros fatores que podem ajudar a explicar o avanço do Reform UK no Reino Unido. O país tem crescido pouco nos últimos anos, convive com desemprego em alta e enfrenta uma inflação acima da meta do Banco da Inglaterra.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Reino Unido cresceu apenas 1% em 2024 e 1,4% em 2025. Apesar de positivos, os números mostram uma recuperação limitada. No fim de 2025, a economia britânica estava apenas 5,3% acima do nível pré-pandemia, desempenho inferior ao da zona do euro, de 6,7%, e ao dos Estados Unidos, de 14,6%.

O mercado de trabalho também piorou. O desemprego chegou a 4,9% no último trimestre, com 1,78 milhão de pessoas sem trabalho – 206 mil a mais do que o mesmo período do ano anterior. Entre os jovens de 16 a 24 anos, a taxa de desemprego subiu para 15,8%.

O Escritório de Responsabilidade Orçamentária (OBR), órgão fiscal independente do governo, revisou para cima sua projeção e agora prevê que a taxa desemprego no geral pode chegar a 5,3% em 2026. As vagas de emprego disponíveis no país caíram para 711 mil entre janeiro e março, abaixo do nível anterior à pandemia.

A inflação também segue pressionando as famílias. O índice de preços ao consumidor subiu 3,3% nos últimos 12 meses registrados em março, acima da meta de 2% do Banco da Inglaterra. A inflação de serviços (salários, aluguel, transporte, energia e outros custos do dia a dia), chegou a 4,5%. A dívida pública equivalia a 93,6% do PIB no fim do ano fiscal de 2024/25, e o OBR projeta alta para 97% até o ano fiscal de 2028/29.

O Reform UK tem tentado transformar esse ambiente tenso na economia em combustível eleitoral e está conseguindo a atenção do eleitor. Nos últimos meses o partido vem fazendo campanha nos bairros afirmando que o governo trabalhista está ativamente piorando os problemas que prometeu resolver e que são os mais pobres que pagam o preço.

Uma recente pesquisa do instituto Ipsos realizada em abril mostrou que o custo de vida foi citado por 62% dos eleitores ingleses como o principal fator em suas decisões de voto nas eleições locais de maio – à frente do serviço público de saúde (58%) e da segurança pública (55%).

Farage pode ser o próximo premiê nas eleições gerais?

A pergunta que domina os bastidores de Westminster neste momento é se o Reform UK e Farage podem chegar ao poder nas eleições gerais de 2029.

Números das recentes eleições já explicam por que essa possibilidade passou a ser discutida. Segundo levantamento feito pela emissora britânica Sky News, o partido obteve ao todo 27% dos votos no cálculo nacional nessas eleições de maio, à frente dos Conservadores (20%), dos Trabalhistas (15%) e dos Verdes e Liberal-Democratas (14% cada).

Uma projeção feita pelo instituto Electoral Calculus indicou que, se conseguir chegar a 31% dos votos nacionais em 2029, o Reform UK poderia conquistar 335 cadeiras no Parlamento britânico – acima das 326 necessárias para maioria absoluta.

Mas o caminho até o poder deve ser difícil. No Reino Unido, a eleição geral não funciona por soma nacional de votos. O país é dividido em distritos, e cada distrito elege apenas um deputado. Quem fica em primeiro lugar naquele distrito leva a cadeira. Este processo prejudica partidos como o Reform UK, que possui eleitores bem espalhados.

Em 2024, o partido teve cerca de 14% dos votos nacionais, mas elegeu só cinco deputados, porque ficou em segundo ou terceiro lugar em muitos distritos. Há ainda a divisão de votos com os conservadores em certos locais, o que poderia acabar dando a vaga para candidatos trabalhistas ou de outras legendas.



Fonte ==> Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto

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