O projeto Comida com História lança o livro digital “Histórias à Mesa: A Culinária das Famílias Sírio-Libanesas de Florianópolis”. A obra resgata a memória gastronômica e cultural dos imigrantes que chegaram a Santa Catarina entre o fim do século 19 e o início do século 20. O material é distribuído de forma gratuita na internet pelo link: https://comidacomhistoria.com.br/
A publicação detalha a trajetória histórica e as receitas originais preservadas por gerações nas famílias Boabaid, Cherem, Daura, Daux, Mussi e Salum. Os textos do livro também descrevem o processo de adaptação dos imigrantes aos ingredientes disponíveis no Brasil para recriar os costumes da terra natal.
Para a organizadora da obra, Leyla Spada, o material funciona como um baú que guarda os segredos culinários da comunidade. Ela explica que o projeto nasceu do anseio de preservar as receitas familiares que marcam a memória afetiva dos descendentes. “As famílias abriram suas casas para contar um pouco da história dos imigrantes que vieram do Líbano para Florianópolis”, afirma. Segundo a autora, o processo de reunir essas tradições à mesa é uma forma de reescrever o passado com carinho, gratidão, orgulho e saudade.
Do campo ao comércio
Atualmente, o Brasil abriga a maior comunidade de libaneses e descendentes do mundo. São cerca de 8,8 milhões de pessoas no País, um número superior à população do próprio Líbano, estimada em 5,6 milhões de habitantes, de acordo com a Associação Cultural Brasil-Líbano.
Muitos dos imigrantes que chegaram no fim do século 19 e no início do século 20 no Brasil abandonaram a vida de agricultores nas terras do Oriente Médio. Com isso, passaram a trabalhar como mascates, que eram como vendedores ambulantes na época. Assim, com o fruto do trabalho, conseguiram recursos necessários para abrirem lojas e comércios tradicionais no centro de Florianópolis.
Culinária como identidade
Com o passar das décadas e a integração com os brasileiros, diversos costumes originais das famílias imigrantes perderam força. A culinária típica, no entanto, resistiu ao tempo como o principal traço de identidade cultural dessas populações. Mais do que alimentar, a gastronomia passou a ser a grande responsável por manter as tradições, fortalecer o pertencimento e unir os mais novos.
A comida se consolidou, assim, como uma linguagem de afeto e hospitalidade na nova terra. Dessa forma, o livro registra o preparo e a oferta de comidas tradicionais que funcionaram como uma ferramenta prática de socialização das famílias com os vizinhos locais. Ao todo, a publicação documenta mais de 20 receitas divididas entre acompanhamentos, molhos, doces, pastas e pratos principais, incluindo clássicos como quibes, esfirras, mjadra, charutos de folha de parreira e a sopa shish barak.
Responsável pela realização do livro, o projeto multiplataforma Comida com História atua com foco na valorização de tradições gastronômicas. O grupo produz reportagens, vídeos e podcasts com o objetivo de contar as histórias por trás da comida, debater a sustentabilidade alimentar e aproximar os consumidores dos pequenos produtores. A edição do livro foi viabilizada com patrocínio do município, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Florianópolis.

Fonte ==> Sul De Floripa