Quarto mandato de Lula exige novas estratégias – 25/10/2026 – Opinião

Homem de barba branca e chapéu de palha levanta a mão direita em cumprimento diante de multidão desfocada com bandeiras coloridas e pessoas usando celulares.

Ao se reeleger, Lula é o primeiro candidato a perder o primeiro turno e vencer no segundo em toda a redemocratização. Numa campanha impressionante, comandada pelo “general” Janones na internet e pelos jovens nas ruas, Lula também será o primeiro a vencer quatro eleições presidenciais. Uma vitória fantástica por esses dois indicadores, mas o governo começa nesta segunda-feira (26), e haverá muitas dificuldades no quarto mandato.

O presidente Lula tem de comemorar, mas precisa tirar lições desta eleição para não cometer os mesmos erros do terceiro mandato. A primeira é que sua vitória se deveu, em boa medida, a uma estratégia voltada para o futuro, com mudanças na comunicação nas redes sociais e lideranças jovens comandando a virada. O PT precisa se renovar urgentemente se não quiser perder relevância nos próximos anos, alçando os líderes do Nordeste, os(as) jovens parlamentares e figuras de fora do partido, como André Janones, a um patamar de maior importância.

Uma segunda lição se refere à necessidade de ampliar os apoios para além do petismo. O abandono da ideia de frente ampla foi um dos grandes erros do terceiro mandato. Será fundamental, porém, chegar também a setores da sociedade que rejeitam o presidente Lula, especialmente à classe C, grupo que cresceu com as políticas dos primeiros governos petistas e que agora sonha com novos avanços em sua autonomia econômica. Buscar os atores que pensam diferente, inclusive eleitores bolsonaristas, dialogar com eles e propor novas soluções são medidas centrais para o sucesso do novo governo.

Como consequência dessa ampliação, será preciso atuar em áreas que não foram prioritárias no terceiro mandato. Eis a terceira lição do processo eleitoral de 2026. Três temas serão inescapáveis. A segurança pública é a prioridade máxima. A implementação do Susp, com maior integração entre as forças policiais do governo federal e dos estados, assim como o combate ao narcotráfico nas fronteiras e o maior uso de instrumentos de inteligência policial, são medidas essenciais.

Outra questão central é o empreendedorismo, com a ampliação das oportunidades e do conhecimento sobre como abrir e ter êxito em pequenos negócios. Isso não significa ignorar a importância dos trabalhadores com carteira assinada, nem a urgência de aumentar o investimento das empresas e sua produtividade. O ideal é formular políticas para ambas as realidades produtivas.

Um assunto deve ser visto com mais cuidado, porque é fundamental para todos os outros: a sustentabilidade fiscal. Se o presidente reeleito quiser reduzir a taxa de juros para ampliar o crescimento do país e diminuir o endividamento das pessoas e das empresas, terá de promover um ajuste nas contas públicas que aponte, no médio e no longo prazo, para uma mudança no perfil da dívida pública. Não há solução fácil aqui, mas iniciar esse processo já no começo do governo, buscando o apoio da sociedade, pode levar a uma perda imediata de popularidade —só que também poderá garantir um governo bem-sucedido e o desenvolvimento estrutural do país.

Fazer esses ajustes nas políticas públicas não significa que o lulismo deva abandonar suas bases e políticas clássicas. O segundo turno foi muito claro ao ressaltar a relevância das ações sociais para o voto. Todavia, como quarta lição, percebeu-se que, mesmo nas áreas em que os governos Lula historicamente tiveram sucesso, é preciso continuar avançando. A defesa do SUS e do Farmácia Popular é fundamental, mas melhorar a eficiência dos atendimentos e exames também é uma pauta prioritária.

A educação é um dos orgulhos do presidente reeleito, mas vale ressaltar que há uma ampla agenda nessa área que precisa avançar, incluindo as políticas para a primeira infância, a educação especial inclusiva, a escola de tempo integral e a educação de jovens e adultos. Soma-se a elas, como grande questão do quarto mandato, a implantação do Sistema Nacional de Educação.

Lula se torna o maior líder popular do período democrático brasileiro. Mas, se quiser terminar sua carreira no auge, o presidente reeleito terá de apontar um horizonte de futuro para os brasileiros. Daí decorre a quinta lição das eleições: há um antipetismo forte, contudo, o país está ávido por um projeto que melhore as políticas e as instituições. Isso exigirá ir além do discurso petista e descobrir novos caminhos para enfrentar as intempéries do século 21. O mesmo nível de criatividade que Lula demonstrou no primeiro mandato será exigido em seu último governo.

Aqui está o maior desafio.

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Fonte ==> Folha SP

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