Barroso diz que votou pela prisão de Lula ‘com dor no coração’

Barroso diz que votou pela prisão de Lula "com dor no coração"

Ministro Luís Roberto Barroso pensa em antecipar aposentadoria do STF e chama sanções dos EUA de ‘chateação’

Barroso destaca admiração por Lula, mas não se arrepende do voto pela prisão em 2018 – Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil/ND

O ministro Luís Roberto Barroso deixou a presidência do STF (Supremo Tribunal Federal) na quinta-feira (25). Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, ele admitiu a possibilidade de antecipar a saída da Corte e comentou sua relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em 2018, o ministro votou contra o habeas corpus preventivo a Lula, o que abriu caminho para a prisão do petista condenado em segunda instância. No ano seguinte, a Corte reviu o entendimento e decidiu que os réus só poderiam ser presos após o o trânsito em julgado.

“Vamos supor que eu tivesse votado no presidente Lula, que eu gostasse do presidente Lula. Eu sou um juiz. Eu deveria mudar a jurisprudência por querer bem ao réu? A vida de um juiz que procura exercer seu ofício com integridade e sem partidarismo exige decisões que são pessoalmente difíceis”, disse Barroso à Folha de S. Paulo.

“Note-se que, naquele momento, não havia sobre a Lava Jato as suspeições que depois vieram a ser levantadas. Portanto, eu apliquei ao presidente Lula, com dor no coração, a jurisprudência que eu tinha ajudado a criar”, lembrou.

Segundo o ministro, os dois nunca conversaram sobre o voto, do qual não se arrepende: “Eu acho que o presidente é um homem que já esteve tempo suficiente no sereno para entender qual é o papel de um juiz que cumpriu o seu dever de aplicar também a ele o que havia aplicado a outras pessoas”.

Barroso cogita antecipar aposentadoria do STFBarroso se aposenta obrigatoriamente em 2033, mas pensa em antecipar saída do STF – Foto: Rosinei Coutinho/STF/ND

Ele também comentou os elogios que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigiu a Lula após um breve encontro na Assembleia Geral da ONU. O norte-americano declarou em seu discurso que os dois tiveram “química excelente”.

Barroso se diz testemunha do poder de sedução do petista. Ele revelou à Folha que sua sogra, que não tinha apreço por Lula, virou uma “fã apaixonada” em questão de minutos.

“O presidente Lula é uma pessoa muito agradável e carismática. Logo que ele se elegeu, veio na minha casa, ainda antes da posse. Minha sogra, que é holandesa, não tinha muita simpatia por ele. Mas, em dez minutos, Lula arrumou uma fã apaixonada. Ele tem a capacidade de seduzir as pessoas”, contou.

Veja trecho da entrevista de Barroso sobre a relação com Lula

Barroso revela “dor no coração” ao votar contra o habeas corpus de Lula em 2018 – Vídeo: Reprodução/Folha de S. Paulo/Youtube/ND

Barroso admite possibilidade de deixar o STF, mas nega medo da Lei Magnitsky

Questionado sobre os rumores de que pretende antecipar a aposentadoria do STF, Luís Roberto Barroso brincou: “Tem tanta gente assim querendo se livrar de mim?”

O ministro foi indicado ao cargo pela presidente Dilma Rousseff (PT) em 2013. Pela regra, todos os integrantes do STF devem se aposentar aos 75 anos, que Barroso completará em 2033, a menos que optem por antecipar a saída.

“Sair do Supremo é uma possibilidade, mas não é uma certeza. Eu verdadeiramente ainda não tomei essa decisão”, admitiu.

Ele havia prometido à esposa Tereza Cristina van Brussel que se aposentaria quando deixasse a presidência do STF. A empresária, no entanto, morreu em 2023 em decorrência de um câncer.

Barroso diz que revogação do visto dos EUA é uma 'chateação'Ministro diz que Lei Magnitsky “não tem nada a ver com ficar ou sair” do STF – Foto: Reprodução/ND

“Ela já estava doente, mas a gente tinha a pretensão de passear um pouco, de ter uma vida mais leve. Essa motivação eu já não tenho mais. Então estou ainda verdadeiramente pensando no que fazer. Às vezes tenho a sensação de já ter cumprido o meu ciclo. Às vezes penso que ainda poderia fazer mais coisas. Estou falando da forma mais franca possível, do fundo do meu coração”, afirmou à Folha.

Ele negou que a possibilidade de deixar a Corte tenha relação com as sanções dos Estados Unidos, que revogaram vistos dos ministros do STF e enquadraram Alexandre de Moraes e a esposa, Viviane Barci, na Lei Magnitsky.

“Se eu disser que ter ou não visto para ir aos EUA é indiferente, não estaria dizendo a verdade. Tenho relações acadêmicas e amigos queridos no país. Então é uma chateação para mim. Agora, eu vivo a vida como ela vem, entende? Tenho convites para ir à França, à Alemanha, à Itália, e a minha vida continua”, considera.

“Sair ou não do STF, hoje, tem mais a ver com a exposição pública pessoal, sobretudo dos meus filhos e das pessoas com quem me relaciono. Minha mulher sofria imensamente. A AGU [Advocacia-Geral da União] pagou honorários, como manda a lei, a mais de cemmil advogados. Mas a notícia é que a namorada do Barroso recebeu R$ 300 mil. Tudo isso chateia”, completou.



Fonte ==> NDMais

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