Cancelar o LRCAP seria remédio pior que a doença – 19/05/2026 – Joisa Dutra

Três homens de terno sentados em mesa com microfones durante coletiva. Banner na frente exibe texto parcial

Ganha força um movimento pelo cancelamento do LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade) realizado pela Aneel em março deste ano para a contratação de potência. O coro vem de dentro e de fora do setor de energia. Foram cerca de 19 GW contratados —volume superior à capacidade instalada de Itaipu—, apontados pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética) como reforço à segurança de suprimento e a um novo modelo com requisitos de flexibilidade, e pelo MME (Ministério de Minas e Energia) como vetores de cerca de R$ 64,5 bilhões em investimentos.

Críticas surgiram rapidamente, alegando impacto excessivo para o consumidor. CNI (Confederação Nacional da Indústria) e Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) pediram a suspensão da homologação, projetando custos que, em algumas estimativas, alcançariam R$ 800 bilhões ao longo dos contratos. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriu apuração administrativa, o TCU (Tribunal de Contas da União) foi acionado, e o MPF (Ministério Público Federal) pediu a suspensão imediata dos contratos sob alegação de irregularidades, formação de cartel e revisão inoportuna de preços-teto. Alinhada a essas demandas, a Aneel retirou a homologação da pauta da reunião desta semana, à espera de definições sobre os conflitos judiciais.

E cresce o coro daqueles que pleiteiam não apenas a suspensão, mas a anulação do certame, com a realização de novo leilão em data futura. Os adeptos dessa corrente incluem influenciadores, e a guerra de narrativas já chegou às redes, em padrões que lembram outros episódios recentes do noticiário econômico. Mas é preciso olhar as agendas de quem está por trás desse movimento.

Desenho de leilão é coisa séria. Em economia, já rendeu reconhecimento direto e indireto via prêmios Nobel. Em 2020, Paul Milgrom e Robert Wilson foram agraciados precisamente por seus avanços em teoria de leilões e por inventarem novos formatos. Wilson dedicou parte expressiva da carreira ao desenho de leilões e mercados de eletricidade.

Já trabalhei muito com o tema, na teoria e na prática. Felizmente, alguns ensinamentos podem ser traduzidos em mensagens simples e poderosas. É fundamental atrair o maior número possível de competidores críveis —aqueles que vão honrar contratos longos para operar ativos de vida útil extensa e altamente específicos. Atrair grande número de participantes requer preços-teto que não sejam excessivamente baixos: mais vale um competidor adicional dando lance do que um teto que afaste interessados e prejudique a própria dinâmica de descoberta de preços. Paul Klemperer, outro grande nome da área, lembrava que, apesar dos avanços teóricos, atrair entrada é o que decide o jogo, e que para isso é preciso evitar barreiras à entrada, prevenir conluio e impedir sinalização entre concorrentes.

Leilão bom é leilão eficiente: maximiza valor para o contratante leiloeiro e seleciona vencedores com maior probabilidade de cumprir as obrigações ao longo da vigência do contrato.

Renegociações oportunistas vão na contramão desse resultado. Uma das maiores dificuldades práticas é saber se o resultado observado é o melhor possível, já que não vemos o contrafactual —o que teria ocorrido com regras diferentes. Boa parte dos pleitos dos opositores esteve nas contribuições às consultas públicas e discussões que antecederam o leilão, em ritos conhecidos.

E aqui o cancelamento do LRCAP flerta com o perigo. Alegam alguns que custos elevados e impactos sobre os consumidores resultaram de processo ineficiente e pouco transparente. Não é a avaliação desta colunista, que já se manifestou sobre o tema e já trabalhou no desenho e implementação de diversos leilões, inclusive de eletricidade. Sim, as regras poderiam ter sido outras, mas não foram.

Os novos atores que se juntam ao coro do cancelamento olham para o presente ou para contratos atuais, sem dimensionar o custo de oportunidade de não avançar essa contratação. Ignoram os alertas do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e da EPE sobre a necessidade de o sistema contar com recursos capazes de integrar melhor as fontes solar e eólica, cuja expansão descentralizada é característica da transição energética.

Ignoram a incerteza climática —a NOAA, a agência atmosférica americana, atribui hoje mais de 90% de probabilidade a um El Niño se formar no fim deste ano, fenômeno que costuma afetar negativamente afluências e reservatórios no Nordeste e Sudeste, regiões que concentram a maior parte do armazenamento do sistema interligado.

Ignoram, ainda, os riscos geopolíticos: guerras pressionam preços e logística do gás e do petróleo, com impacto direto sobre o custo de implantar e operar termelétricas.

Argumentariam alguns que tais fatores justificam reduzir, e não ampliar, a participação dessas fontes em nosso mix. Mas isso vai de encontro ao que ensinava Winston Churchill, em 1913, sobre energia: a segurança está “na diversidade, e somente na diversidade”. Falava ele de diversificar fontes de petróleo para a Marinha Real, mas o princípio é geral.

No Brasil, com matriz cada vez mais hidro-renovável e exposta ao clima, a concentração a evitar é a falta de respaldo firme e flexível. A variedade que o LRCAP contrata, térmicas flexíveis agora, baterias e reversíveis no próximo ciclo, ancora a transição em vez de atrasá-la.

O avanço das baterias é bem-vindo, e os próximos leilões —que deverão incluir baterias e usinas reversíveis (PHS)— devem ser a prioridade. Para isso, a homologação do LRCAP precisa seguir o rito estabelecido. Houve ampla oportunidade para participação e discussão das regras. Agora é hora de avançar. Ambiente de negócios é coisa séria, impacta custo de capital que aqui já é elevadíssimo. Trabalhemos para melhorá-lo.



Fonte ==> Folha SP

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