Dos 56 deputados que Santa Catarina elegeu no domingo (4), só três tiveram votos suficientes para garantir a vaga sem depender de ninguém: Júlia Zanatta (PL), na Câmara dos Deputados, Ana Campagnolo (PL) e Luciane Carminatti (PT), na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina). Os outros 53 precisaram da soma dos votos dos colegas de partido ou de federação.
A explicação está no quociente eleitoral, a conta que define quantos votos vale uma cadeira. Divide-se o total de votos válidos pelo número de vagas. Brancos e nulos ficam fora da conta. Em 2026, o resultado foi de 264.469 votos para cada uma das 16 vagas de deputado federal e de 106.777 para cada uma das 40 de estadual. Zanatta recebeu 560.223 votos, mais que o dobro do necessário. Campagnolo teve 387.523, o equivalente a 3,6 cadeiras. Carminatti, 124.590. Juntas, as três somaram 1.072.336 votos.
As votações de Zanatta e de Campagnolo são as maiores para deputado federal e para deputado estadual em Santa Catarina desde 1998. Campagnolo já tinha superado o quociente em 2022, com 196.571 votos, e quase dobrou a marca. Carminatti havia sido a segunda mais votada para a Alesc naquele ano, com 92.478 votos, abaixo dos 100.101 que valiam uma vaga.
Na prática, o voto para deputado vale duas vezes. Primeiro, ajuda o partido a conquistar cadeiras. Depois, define quem, dentro do partido, vai ocupá-las. É por isso que um candidato pode ter mais votos do que outro e ficar de fora. O levantamento do Núcleo de Dados do Grupo ND, com base em dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), mostra que isso ocorreu com 16 candidatos neste ano: quatro na disputa para a Câmara e 12 para a Alesc.
Atingir o quociente sozinho é um resultado muito pouco comum nas eleições catarinenses. Desde 1998, só aconteceu sete vezes no Estado, três delas agora. Antes, apenas Esperidião Amin, João Rodrigues e Gelson Merisio, em 2014, e a própria Campagnolo, em 2022. Ou seja, apenas 1,6% dos 448 deputados eleitos neste período tiveram, sozinhos, votos equivalentes a uma cadeira. É a primeira vez que três mulheres conseguem na mesma eleição.
Os números que vão do voto à cadeira
O PL é o exemplo mais prático para mostrar a conta dos deputados para as vagas. O partido e seus candidatos a deputado federal somaram 1.539.134 votos. Dividido pelo quociente, o total dá 5,8. A sigla garantiu, de saída, cinco cadeiras. Feita essa primeira rodada com todos os partidos, quatro das 16 vagas continuaram abertas. São as chamadas sobras. Elas são entregues, uma a uma, a quem tem a maior média de votos por cadeira. O PL ficou com duas e fechou a conta com sete deputados federais.
As outras duas sobras foram para a federação de PT, PCdoB e PV e para o Podemos. O Podemos somou 218.678 votos, 83% de um quociente, e ainda assim elegeu Paulinha. Para disputar as sobras, o partido precisa ter ao menos 80% do quociente, e o candidato, 20%. A média é calculada dividindo os votos do partido pelo número de cadeiras que ele já conquistou mais um. O cálculo se repete a cada vaga.
Na Alesc, sete das 40 vagas saíram das sobras. O PL somou 1.528.729 votos, ou 14,3 quocientes, garantiu 14 cadeiras de saída e chegou a 16 com as sobras. O PDT, com 96.478 votos, não alcançou o quociente e elegeu Rodrigo Minotto.
Definidas as vagas de cada partido, entram os mais votados da sigla. O candidato precisa ter ao menos 10% do quociente. Neste ano, eram 26.447 votos para deputado federal e 10.678 para estadual. Em Santa Catarina, ninguém ficou de fora por essa regra.
Bem votados sem cadeira
Valdir Cobalchini (MDB) recebeu 99.751 votos para deputado federal e não se elegeu. Geovania de Sá (Republicanos) ficou com a última vaga com 74.603. A diferença está na soma dos partidos. O MDB teve 384.396 votos, o suficiente para uma cadeira, que ficou com Pezenti, o mais votado da sigla, com 125.010. O Republicanos somou 340.571, também conquistou uma vaga, e Geovania era a primeira da lista.
Na Alesc, o caso mais extremo é o de Camasão (PSOL), com 43.869 votos. A federação de PSOL e Rede conquistou uma vaga, ocupada por Marquito, que teve 65.199. Anna Carolina (Republicanos) entrou com 25.647: o partido somou 331.221 votos e elegeu três.
Não tem voto perdido
Dos votos dados a candidatos a deputado federal, 45% foram para nomes que não se elegeram. Na disputa para a Alesc, 41%. Mas esses votos não se perdem. Eles entram na soma do partido e ajudam a eleger os colegas mais votados. O mesmo vale para o voto de legenda, quando o eleitor digita só o número da sigla: nestas eleições foram 122.103 para federal e 216.297 para estadual.
Vaga ficou mais “cara”
O quociente cresce com o eleitorado. Em 1998, uma vaga de deputado federal custava 146.255 votos em Santa Catarina. Agora, 264.469. Na Alesc, passou de 62.351 para 106.777. É uma alta de 81% na Câmara e de 71% na Alesc em 28 anos.
A votação do último eleito também subiu. Os 25.647 votos de Anna Carolina são o maior piso para a Alesc desde 1998. Em 2022, Matheus Cadorin (Novo) se elegeu com 12.390, e 45 candidatos com mais votos ficaram de fora. Neste ano, foram 12. Na Câmara, os 74.603 votos de Geovania de Sá também são o maior piso da série.
Sete vezes em 28 anos
Nas oito eleições desde 1998, Santa Catarina preencheu 448 cadeiras de deputado, e em apenas sete vezes o eleito teve votos para isso. De 1998 a 2010, ninguém conseguiu. Em 2014, foram três: Esperidião Amin (PP) e João Rodrigues (PSD), para a Câmara, e Gelson Merisio (PSB), para a Alesc. Em 2018, ninguém conseguiu. Em 2022, Campagnolo, com quase dois quocientes. Os 3,6 quocientes deste ano são a maior marca da série. Zanatta, com 2,1, tem a segunda. Nenhum dos três de 2014 repetiu o feito.
Fim das coligações
Até 2018, os partidos podiam se juntar em coligações para somar votos na eleição de deputados. A prática foi proibida a partir de 2020. Desde 2022, valem as federações, em que as siglas atuam como uma só por pelo menos quatro anos. Na disputa para a Câmara, o número de candidatos que ficaram de fora com mais votos do que o último eleito caiu de 21 em 2018, último ano com coligações, para sete em 2022 e quatro agora. Na Alesc, foram 35 em 2018, 45 em 2022 e 12 neste ano. Neste ano, cinco federações disputaram vagas de deputado no Estado.
PL domina votos e vagas
O PL recebeu 36,4% dos votos válidos para deputado federal e ficou com sete das 16 cadeiras, ou 43,8%. Na Alesc, teve 35,8% dos votos e 16 das 40 vagas, o equivalente a 40%. Nenhum outro partido ou federação passou de cinco cadeiras na Alesc. Na Câmara, o partido elegeu cinco deputados pelo quociente e dois nas sobras. A federação de PT, PCdoB e PV foi a segunda força, com três cadeiras federais e cinco estaduais. Os 295.754 votos de Zanatta acima do quociente também ajudaram a sigla a eleger os colegas.
Fonte ==> NDMais