‘Lorem ipsum’, vacilos e dores do jornalismo – 06/06/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Diversos bancos vazios

A coluna seria dedicada ao caso das casas de repouso na City Lapa, em SP, polêmica que eclodiu em vídeo da Folha. Ainda falarei dela por aqui, mas outra questão se impôs: o “lorem ipsum” na capa de sexta (5).

A chamada da primeira página da Folha em latinório rodou as redes sociais como um escândalo, o que soava também um pouco irônico diante da grande queda de circulação do jornal impresso nas últimas décadas.

A repercussão parecia ser catalisada pelo conteúdo. O título ia para “Flávio fala em guerra espiritual contra Lula em ato evangélico“, e a caixa de texto metia o “lorem ipsum” na disputa política.

Flávio, o pré-candidato do PL nascido Bolsonaro, aparecia na foto do alto da página ladeado pelo governador de SP, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e pelo prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB). O trio político estava a bordo de um trio elétrico na Marcha para Jesus, em SP.

O latinório era obviamente um problema enorme e estridente da chamada, mas havia ainda outro, em bom português. O título que se salvou era menos equilibrado do que o interno, em Política, que conseguia um contraponto: “Flávio cita ‘guerra espiritual’, e Messias diz que Marcha para Jesus não é lugar para comício”.

De todo modo, a impressão de desleixo gerada pelo “lorem ipsum” reforçou queixas a respeito de falta de cuidado com o impresso, que deveria ser o produto “premium” da Folha. Não só por ainda pesar sobre ele a obrigação do registro histórico, mas também por ser relativamente caro ante outros serviços de assinatura (com mensalidades de uma ou duas centenas de reais). A capa da sexta tinha ainda outro erro: “pé-frio” grafado como “pré-frio”. Não foi um dia bom.

“Sei que os erros são inevitáveis. Vejo erros quase diariamente, incluindo alguns absurdos, mas vinha entendendo que o jornal tem que ser mais ágil, reduzir custos etc. e portanto a revisão era mínima (apesar que bem que podia ter uma revisão de IA, já pegaria a maioria dos erros). Mas nesta semana veio um erro crasso, um erro imperdoável”, afirmou o leitor Marcelo Li Koga, 39.

Só que ele não fez a observação agora, e sim em novembro. “A manchete de 19 de novembro de 2025 sobre a liquidação do banco Master vinha com informação de R$ 41 milhões que o FGC deveria honrar. Escrita duas vezes, ‘R$ 41 milhões’. Entretanto, a matéria falava em R$ 41 bilhões. Qual seria o certo? Não sei. Meu jornal não é mais fonte confiável. Se a capa não tem revisão, imagina o resto… É O DESCASO TOTAL COM O IMPRESSO.” Houve “Erramos“, e o certo era “bilhões”.

Marcelo, hoje ex-assinante, voltou ao problema em mensagem na sexta a respeito do “lorem ipsum”. “O erro de hoje fez esse que chamei de ‘crasso’ parecer fichinha… É uma pena que nada mudou. Claro que fiquei sabendo da capa pelas redes sociais, porque justamente por esse descaso já parei de assinar a Folha.”

Outros leitores que não desistiram da assinatura também se queixaram. “A Folha quer acabar com a versão impressa? Seria erro grave de revisão, brincadeira de mau gosto ou provocação?”

O jornal reconheceu o problema com “Erramos” neste sábado (6): “Por uma falha técnica, o texto (…) foi publicado incorretamente. Em seu lugar, saiu um texto ‘Lorem Ipsum’, recurso do mercado editorial com palavras em latim para reservar espaço numa página que receberá o conteúdo de fato. O erro foi corrigido na versão digital da edição impressa”. O “lorem ipsum”, aliás, seria um pedaço de “dolorem ipsum”, “a própria dor”, em um texto de Cícero (106 a.C-43 a.C.).

Pedi mais detalhes à Secretaria de Redação a respeito do episódio. “Depois que a chamada já estava finalizada e revisada, o sistema que usamos para fechar o jornal travou e ‘perdeu a retranca’, no jargão que usamos. Quando isso ocorreu, o que estava ali foi substituído por uma versão antiga, com um texto genérico (o ‘lorem ipsum’). É o tipo de texto que preenche uma chamada antes de ela ser editada pelo jornalista. Quando os profissionais no fechamento perceberam o erro, o jornal já estava rodando.”

Os erros de sistema ocorrem, mas a revisão final costuma salvar os textos de problemas mais graves. E foi aí a maior falha. “O procedimento de revisão, que falhou assim pela primeira vez, continua reforçado”, afirma a SR.

Segundo o jornal, todos os exemplares impressos foram atingidos —antigamente, acontecia de o erro ser detectado a tempo de salvar parte da rodagem. Agora, além de ir para a gráfica mais cedo, a impressão é mais rápida, com menos exemplares.

Isso nos leva de volta à repercussão nas redes. Algumas postagens chamavam o erro de “histórico”. As mais populares chegaram a centenas de milhares de visualizações, bem mais do que as edições impressas do jornal.

Na semana passada, o site Poder360 publicou números da queda de circulação geral na imprensa. A Folha, porém, aparecia como exceção ao lado do mineiro O Tempo, com crescimento no papel. Ainda assim, a média diária teria sido de 52.920 exemplares em 2025. Normalmente, o jornal bateria bumbo para a alta, mas isso não ocorreu —até porque faz muitos anos que os números do impresso não são divulgados.

O jornal diz desconhecer os dados do Poder360. “A Folha é auditada de forma independente desde o segundo semestre de 2023. Começou com a PwC, mudando para a BDO no segundo semestre de 2024.” O jornal informa que a “circulação total é de 875.579 (são atualizados em link no rodapé do site)” e que “todos os assinantes têm acesso à Edição Folha no digital”.

Uma fração deles, porém, ainda faz questão do papel —e também espera um pedido de desculpas.



Fonte ==> Folha SP

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