O ‘Brasil por elas’? – 15/10/2026 – Opinião

Homem com expressão de fala segura segura microfone com a mão direita e aponta com a esquerda. Ele veste camiseta amarela e está envolto em uma bandeira do Brasil. Fundo com iluminação verde e estrutura metálica.

Nós, mulheres, somos quase 53% do eleitorado brasileiro. Somos também aquelas sobre quem ainda recai a maior parte do trabalho de gestar e cuidar das crianças, dos idosos, dos doentes e dos lares. Daqui a poucos dias, escolheremos qual projeto de país oferece melhores condições para que possamos trabalhar, cuidar, viver e criar nossos filhos com dignidade e segurança.

Flávio Bolsonaro (PL) sabe que precisa falar com as mulheres. Reservou a nós um capítulo inteiro de seu programa de governo, o “Brasil por Elas”, com 12 compromissos que incluem proteção contra a violência, emprego, crédito e saúde. Mas programas de governo devem ser lidos também pelo que silenciam –e confrontados com a trajetória de quem os apresenta.

Flávio Bolsonaro exerce mandatos parlamentares há quase 24 anos, sendo que das 306 propostas de sua autoria, apenas 3 são relacionadas às mulheres, submetidas apenas após anunciar sua candidatura à Presidência. Cabe ao eleitor questionar por que uma pauta historicamente negligenciada por Flávio Bolsonaro se tornou subitamente central em sua campanha.

O principal problema do “Brasil por Elas” está no restante do programa de governo, onde as mulheres praticamente desaparecem.

A segurança pública, central na atuação do senador, é estrategicamente reduzida ao endurecimento penal, à redução da maioridade penal, à expansão dos presídios de segurança máxima e ao confronto policial.

Em campanha, Flávio diz que vai “arregaçar com vagabundo”. Enquanto senador, mais da metade de suas propostas busca aumentar penas, criar crimes ou ampliar o acesso a armas, incluindo o PL 4.640/2019, que propõe a controversa –e perversa– excludente de ilicitude denominada “suicídio por policial”, presumindo que o indivíduo armado que não se rende deseja ser morto.

O que significa segurança para uma mulher? É viver sem medo da violência sexual, do feminicídio, mas também é viver livre da violência policial e saber que seu filho, seu marido, seu neto voltarão para casa. 86% das vítimas letais de violência policial são homens, jovens e negros6. Mas a estatística termina onde outra história começa.

Ela não conta a história da mãe que reconhece o corpo do filho morto. Da mulher que passa anos tentando provar que o filho que perdeu não pode ser reduzido à palavra “suspeito”. Dessa experiência nasceram as Mães de Maio, as Mães de Manguinhos e tantos outros coletivos de mulheres que transformaram o luto em luta.

A letalidade policial também é, portanto, uma questão das mulheres, sobretudo das mães negras e periféricas, pois nenhuma política que pretenda proteger suas vidas pode ignorar a violência do Estado contra seus filhos, substituindo o direito ao julgamento pela execução, algo incompatível com um Estado democrático de Direito.

Talvez seja justamente nessa simplificação para enfrentar dilemas contemporâneos complexos que se destaca a diferença mais profunda entre os projetos que disputam esta eleição. Uma política de segurança para mulheres não pode começar e terminar no combate à violência doméstica e familiar. Afinal, a desigualdade que atravessa nossas vidas não começa quando um homem nos agride.

Também está nas horas que uma mulher deixa de trabalhar porque não conseguiu vaga na creche; no emprego que abandona para cuidar da mãe idosa; na promoção que não recebe depois de ter filhos; na dependência econômica que a impede de deixar um marido violento; na dupla jornada que transforma o fim do expediente remunerado no início de outro, dentro de casa.

A histórica e estrutural dicotomia do público e do privado segregou as tarefas domésticas como “coisas de mulheres”. Essas atividades são, na verdade, trabalho. E nenhuma economia funcionaria um único dia sem ele. Nesse ponto, o governo Lula oferece uma concepção diferente de política para as mulheres.

Desde 2023, recriou o Ministério das Mulheres, retomou políticas de enfrentamento à violência (esvaziadas durante o governo de Jair Bolsonaro), sancionou a Lei da Igualdade Salarial e instituiu a Política Nacional de Cuidados. Políticas ligadas por uma ideia importante: a desigualdade entre homens e mulheres não decorre apenas da violência ou da discriminação explícita; é estrutural e produzida pela forma como distribuímos dinheiro, trabalho e tempo.

Assim, o fim da escala 6×1, proposta do governo Lula recém-aprovada, é talvez sua política de maior impacto sobre a vida das mulheres. Para quem termina o trabalho remunerado e encontra outro expediente esperando em casa, significa mais tempo para buscar uma criança na escola sem correr, para acompanhar uma mãe idosa ao médico, para estudar, para descansar. Para existir para além do cuidado.

Portanto, antes de escolher o seu projeto de país neste segundo turno, importa não apenas perguntar qual deles promete proteger as mulheres, mas qual compreende como elas vivem e assume o dever de compartilhar com elas as tarefas que são imprescindíveis para a viabilidade da vida humana na Terra.

Quem cuida dos nossos filhos enquanto trabalhamos? Quanto recebemos pelo nosso trabalho? Quem cuida dos familiares quando envelhecem? Nossos filhos estão seguros quando saem de casa? Quanto tempo sobra para nós mulheres depois do emprego, da louça, da roupa, da comida e das crianças? E, depois de cuidarmos de todo mundo, quem cuida de nós?

De fato, são tempos difíceis. Mas é preciso separar o descontentamento generalizado com aquilo que o capitalismo neoliberal financeirizado não é capaz de propiciar, de um ressentimento antipetista.

Esse discurso nos impede de enxergar avanços do governo vigente, e é capturado por falsas promessas a um retorno de “tempos áureos” que, muito especialmente para as mulheres, nunca existiram.

O neoconservadorismo promete segurança às mulheres, mas oferece o retorno ao espaço privado, à perda de autonomia e à exclusão nas decisões, inclusive da vida pública. Em um país onde somos maioria, voltar ao passado significa ter menos poder e mais sobrecarga.

Não somos nicho eleitoral nem um capítulo de programa de governo; somos 53% do eleitorado brasileiro e mais da metade do país. No dia 25 de outubro, vale votar como quem sabe que nosso voto não foi concessão, foi conquista; como quem reconhece a importância de todos os direitos por nós alcançados na Constituição de 1988 e a partir dela e compreende que nenhum direito está definitivamente assegurado se não estivermos dispostas a insistentemente defendê-lo.

TENDÊNCIAS / DEBATES

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Fonte ==> Folha SP

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