Os caminhos da cooperação na IA – 20/08/2026 – Opinião

Os caminhos da cooperação na IA - 20/08/2026 - Opinião

Na última semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reuniu ministros, assessores, conselheiros e especialistas para uma reunião informativa sobre inteligência artificial. A iniciativa mostra que o tema deixou de ser apenas setorial para assumir dimensão estratégica e de segurança nacional. Lula é um presidente que cuida do passado, do presente e do futuro —e sabe que quem dominar a IA, os minerais críticos e outros ativos estratégicos terá papel central na configuração das relações internacionais nas próximas décadas.

Em julho, o Brasil já havia assinado, em Xangai, ao lado de outros 28 países, o acordo constitutivo da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), em cerimônia que contou com a presença do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Os avanços recentes da inteligência artificial impõem desafios inéditos à política internacional. Mais do que uma simples inovação tecnológica, a IA altera a distribuição de poder entre os países, redefine as cadeias produtivas, afeta o mundo do trabalho e traz consequências diretas para a segurança internacional.

Regulação e inovação caminham lado a lado. Mais do que isso, as escolhas que orientarem o desenvolvimento e a regulamentação dessa tecnologia terão impacto decisivo na configuração da ordem mundial nas próximas décadas. Como toda tecnologia, a inteligência artificial não é neutra. Seu impacto dependerá das escolhas políticas, econômicas e éticas que orientarem seu desenvolvimento e sua utilização. O desafio que a humanidade enfrenta não é apenas criar sistemas mais sofisticados. É evitar que o progresso técnico caminhe dissociado de valores democráticos.

Essa preocupação aparece nas reflexões recentes do papa Leão 14 sobre o tema. A questão central vai além de garantir que as máquinas continuem subordinadas ao ser humano. O avanço não pode ser chamado de “avanço” quando amplia a desigualdade, concentra riqueza, enfraquece o trabalho ou transfere decisões fundamentais para algoritmos sem responsabilidade política ou moral.

Hoje, a inovação em inteligência artificial encontra-se fortemente concentrada em dois países: Estados Unidos e China. Ao mesmo tempo, pouquíssimas empresas acumulam enorme capacidade econômica, tecnológica e política. Não se trata de negar o papel da iniciativa privada. Trata-se de reconhecer que os Estados não podem renunciar ao dever de proteger o interesse público.

Os dados tornaram-se um ativo estratégico de altíssimo valor. Alimentam modelos de novas tecnologias, orientam decisões econômicas, militares e políticas. Na nova economia digital, é preciso reforçar o conceito de soberania. Bancos de dados relacionados à saúde, à infraestrutura, aos sistemas financeiros e à administração pública precisam ser protegidos.

A inteligência artificial também altera profundamente a segurança internacional. O desenvolvimento de armas autônomas aproxima o mundo de um cenário distópico em que máquinas poderão desempenhar funções antes reservadas ao julgamento humano. Quando o uso da força se torna cada vez mais distante e impessoal, desaparecem não apenas o risco para quem aperta o botão, mas também parte da responsabilidade moral por suas consequências.

O Brasil pode contribuir para uma resposta internacional a esses desafios. Nosso país participa das discussões sobre governança da inteligência artificial nas Nações Unidas, no Brics, na OCDE e em outros fóruns. Defendemos a cooperação internacional baseada em regras compatíveis com princípios éticos, transparência e respeito à soberania nacional.

Não interessa ao Brasil aderir à lógica de uma nova divisão tecnológica do mundo. Nossa tradição diplomática recomenda autonomia e diversificação de parcerias. Essa postura amplia oportunidades, reduz vulnerabilidades e preserva nossa capacidade de decisão. Modelos baseados em código-fonte aberto favorecem uma inovação mais inclusiva e ampliam a disseminação do conhecimento.

Com o avanço da inteligência artificial, amplia-se também o impacto da desinformação. Na “economia da atenção”, o diálogo perde espaço para narrativas produzidas com o objetivo de manipular emoções e apelar a instintos irracionais. A mesma tecnologia pode, ainda assim, contribuir para um futuro de grande prosperidade para todos. Isso exige Estados capazes de regulamentar; instituições eficazes e a convicção de que o progresso só faz sentido se estiver a serviço do ser humano.

TENDÊNCIAS / DEBATES

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Fonte ==> Folha SP

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