Classificado como organização terrorista pelos Estados Unidos, o Primeiro Comando da Capital (PCC) está também no radar da União Europeia. A facção foi citada em um relatório da Eurojust, agência responsável pela cooperação judiciária em matéria criminal, sobre o avanço de organizações criminosas latino-americanas na Europa.
Sediada em Haia, nos Países Baixos, a Eurojust auxilia autoridades nacionais a coordenar investigações e processos envolvendo crimes transnacionais, incluindo tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, terrorismo e organizações criminosas.
O documento, publicado em 17 de setembro, reúne as conclusões da terceira reunião plenária da Rede Judiciária Europeia contra o Crime Organizado (EJOCN), realizada em abril na sede da Eurojust. Entre os temas discutidos pelos procuradores na ocasião estava a presença de cartéis latino-americanos na Europa, com atenção ao PCC, além das formas de ampliar a cooperação entre autoridades europeias e latino-americanas para investigar e desarticular essas redes.
PCC tenta ganhar acesso aos canais de distribuição de drogas na Europa
Na parte dedicada ao PCC, o relatório da Eurojust reproduz uma apresentação do InSight Crime, organização especializada em crime organizado nas Américas, sobre a evolução da facção e sua entrada no narcotráfico europeu.
Segundo a análise, o PCC desenvolveu relações diretas com produtores de cocaína na Bolívia, no Peru e na Colômbia e ampliou sua influência sobre portos brasileiros usados para escoar a droga. Depois de consolidar espaço nessa etapa da logística, a facção estaria tentando avançar também sobre a distribuição nos mercados consumidores, “em particular” na Europa.
Nesse movimento, o PCC passou a construir relações estratégicas com organizações criminosas sérvias e com a máfia italiana ’Ndrangheta. Enquanto esses grupos europeus buscam se aproximar das fontes sul-americanas para comprar cocaína em condições mais vantajosas, a facção brasileira ganha acesso a redes capazes de distribuir drogas no outro lado do Atlântico.
O relatório observa que a integração cada vez maior entre criminosos dos dois continentes pode ser percebida pelo aumento da presença de cidadãos da União Europeia em operações de tráfico na América Latina. Um levantamento do InSight Crime publicado em 2023 identificou 38 traficantes europeus de alto escalão presos na América Latina e no Caribe desde 2019, mais do que nos dez anos anteriores somados. Italianos apareciam em maior número, seguidos por holandeses e integrantes de grupos dos Balcãs. Ao mesmo tempo, o PCC também vem buscando espaço em novas rotas de tráfico na África.
Em relatório publicado em 2023, a Direção Central de Serviços Antidrogas da Itália registrou que 29,2 toneladas de cocaína apreendidas no Brasil em 2022, que seriam destinadas ao exterior, tinham a Europa como principal mercado. Alemanha, Portugal, Bélgica, Espanha, Holanda e Itália estavam entre os principais destinos identificados.
No mesmo documento, o órgão italiano apontou o PCC e o Comando Vermelho (CV) entre as principais organizações brasileiras envolvidas no tráfico transnacional de drogas. Em relatório mais recente, publicado em 2025, a polícia antidrogas italiana voltou a citar o PCC e o CV entre as organizações que controlam parte do comércio brasileiro de cocaína e mantêm relações com grupos albaneses, sérvios e com a máfia italiana ’Ndrangheta.
Para Claudia Rocha Piccin, advogada especialista em Direito Penal e Processo Penal e professora da Universidade Positivo, a expansão do PCC para a Europa acompanha uma transformação mais ampla do próprio crime organizado, que passou a aproveitar a integração dos mercados e das rotas internacionais. Segundo ela, a facção brasileira conseguiu sair de uma atuação inicialmente local no Brasil, expandir sua presença pela América Latina e depois ampliar o comércio de cocaína por rotas marítimas em direção à Europa.
Europa mira dinheiro e conexões do PCC no continente
A expansão do PCC levou os procuradores europeus a discutir onde a estrutura da facção, e de outras organizações semelhantes, pode ser mais vulnerável.
Um dos pontos destacados foi o papel dos intermediários que ligam fornecedores, transportadores e distribuidores de drogas. Como precisam manter contato frequente com diferentes partes do esquema, eles deixam rastros que podem ajudar as autoridades a identificar outros integrantes e conexões da rede criminosa.
O dinheiro é outro ponto de atenção. Mesmo com estruturas flexíveis, os criminosos ainda precisam movimentar, lavar e utilizar os lucros obtidos com suas atividades. Por isso, o relatório aponta as investigações financeiras como outra forma de chegar a integrantes e estruturas que sustentam essas redes.
A discussão ocorre em meio a um esforço de aproximação entre autoridades europeias e latino-americanas. No encontro da Rede Judiciária Europeia contra o Crime Organizado, a Rede de Procuradores Antidrogas da Ibero-América apresentou um protocolo para agilizar a troca de informações entre procuradores e seu uso em investigações e processos judiciais.
Para Cássio Eduardo Zen, professor de Direito Internacional do Centro Universitário Fapi, o aumento da atenção das autoridades europeias ao PCC acompanha a expansão da própria facção no continente, especialmente no tráfico de drogas e na movimentação de recursos. Zen considera provável que autoridades europeias já tenham identificado movimentações financeiras ligadas ao PCC ou a grupos associados à facção no continente.
Para ele, esse pode ser justamente o principal ponto de vulnerabilidade do grupo criminoso. “O tráfico acaba localizando outras rotas, mas, na área econômica, caso sejam identificados ativos financeiros ligados ao grupo na Europa, estes podem ser bloqueados com relativa facilidade”, disse ele à Gazeta do Povo.
Portugal já trata avanço de grupos criminosos brasileiros como ameaça
O Relatório Anual de Segurança Interna de Portugal de 2025, apresentado pelo governo em março deste ano, afirmou que o avanço de organizações criminosas latino-americanas sobre a Europa estava se tornando cada vez mais evidente.
O documento classificou esse movimento como um fator relevante de ameaça à paz social e citou nominalmente o PCC e também o Comando Vermelho (CV), além da facção criminosa venezuelana Tren de Aragua, entre os grupos marcados por elevados níveis de violência, diversificação das atividades criminosas e expansão territorial.
Em janeiro deste ano, a Procuradoria da República da Comarca de Faro organizou, no auditório da Polícia Judiciária em Faro, no sul de Portugal, uma conferência voltada a analisar a atuação do PCC e os desafios impostos pela facção brasileira às autoridades portuguesas. O encontro abordou a história, a estrutura, o modus operandi e as atividades criminosas do grupo. A plateia da conferência era formada principalmente por magistrados, integrantes de órgãos de polícia criminal, serviços de segurança do Estado e representantes do sistema penitenciário.
Em abril de 2024, o Ministério Público português acusou 71 pessoas, 30 portugueses, 29 brasileiros e 12 africanos, por crimes como associação criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade informática. Segundo a acusação, parte dos investigados pertencia ao PCC. Nesse caso, o grupo capturava dados de clientes bancários por meio de páginas falsas e utilizava engenharia social para autorizar transferências. Depois, o dinheiro passava por diferentes contas entre Portugal e Brasil para ser lavado.
Em novembro de 2025, a polícia portuguesa prendeu, em Cascais, um homem que, segundo a Interpol, era ligado ao PCC. Ao divulgar os resultados da operação no mês seguinte, a Interpol afirmou que a prisão desarticulou uma importante rota de tráfico de cocaína entre São Paulo e a Europa. O homem era procurado por crimes relacionados a associação criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro e também já havia sido condenado no Brasil por tráfico internacional de drogas. A operação da Interpol da qual sua captura fez parte reuniu autoridades de 17 países e resultou na prisão, ao todo, de 85 indivíduos.
Máfia italiana troca armas por cocaína do PCC
A relação entre o PCC e grupos criminosos europeus já apareceu também na Operação Eureka, uma das maiores ações internacionais já realizadas contra a ’Ndrangheta, organização mafiosa que atua na Calábria e é responsável por uma parcela relevante do comércio de cocaína na Europa.
Em maio de 2023, mais de 2,7 mil agentes participaram da operação coordenada em dez países que levou à prisão de 132 suspeitos ligados à máfia italiana. A operação foi apoiada pela Eurojust e pela Europol.
As investigações revelaram uma ligação direta da máfia italiana com a facção brasileira. Segundo a Eurojust, integrantes da ’Ndrangheta participavam de um esquema de tráfico internacional de armas provenientes do Paquistão para a América do Sul e forneciam armamentos ao PCC em troca de carregamentos de cocaína.
A investigação alcançou ainda uma estrutura internacional de lavagem de dinheiro com investimentos na Bélgica, Alemanha, Itália, Portugal, Argentina, Uruguai e Brasil. Empresas, imóveis, restaurantes, hotéis e outros negócios eram utilizados para movimentar ou ocultar recursos ilícitos.
Facções brasileiras também atuam em território francês na América do Sul
Um relatório do Senado francês apresentado em novembro de 2025 identificou quatro facções brasileiras que já estão atuando na Guiana Francesa, departamento ultramarino da França na fronteira com o Brasil. O documento citou o PCC, Comando Vermelho, Família Terror do Amapá e Amigos Para Sempre (também do Amapá, esta última, segundo autoridades brasileiras, possui vínculos com o CV).
Segundo os senadores franceses, esses grupos têm como objetivo estabelecer posições na Guiana, que é vista por eles como uma porta de entrada para a Europa. Eles recorrem a crimes como assaltos armados, assassinatos e sequestros na região. O documento estimou que cerca de 400 integrantes das diferentes facções brasileiras já haviam sido identificados no território.
O relatório também relacionou a presença dessas organizações ao narcotráfico e ao garimpo ilegal e recomendou ampliar a cooperação com o Brasil para combater tais grupos. Entre as medidas citadas estão investigações bancárias, apreensão e confisco de ativos, interceptações telefônicas, entregas controladas, perseguições transfronteiriças e formação de equipes conjuntas de investigação.
EUA passaram a tratar PCC e diversos outros grupos da América Latina como terroristas
Enquanto a Europa ainda estuda ampliar instrumentos tradicionais para combater o avanço do crime organizado latino-americano no continente, os Estados Unidos decidiram adotar um mecanismo ainda mais duro.
Washington classificou nos últimos meses diversas organizações criminosas da América Latina como grupos terroristas e ampliou a parceria com os países para endurecer medidas e até realizar ataques contra tais grupos. Entre os grupos criminosos atingidos pela medida americana estão o PCC e o CV.
Em 5 de junho deste ano, entrou em vigor a decisão do secretário de Estado Marco Rubio que classificou as duas facções brasileiras como Organizações Terroristas Estrangeiras. No mesmo dia, as duas organizações também entraram na lista de sanções americanas.
Na decisão, Rubio afirmou que elas representam um perigo para a segurança nacional, a política externa ou a economia dos Estados Unidos. A mudança ampliou os instrumentos disponíveis para Washington atingir não apenas integrantes das facções, mas também estruturas econômicas associadas a elas.
Menos de um mês depois, em 1º de julho, o Departamento do Tesouro sancionou dois brasileiros, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa por ligações atribuídas ao PCC. Entre as empresas atingidas estava uma companhia de transporte e armazenagem localizada nas proximidades de Lisboa. Segundo o Tesouro, ela pertence a um homem que atuaria como um elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes estrangeiros. Washington afirma que a rede criminosa lavou mais de US$ 30 milhões obtidos em diferentes cidades americanas e utilizou criptomoedas para transferir recursos de volta ao Brasil.
O Tesouro americano descreveu o PCC como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e afirmou que a facção mantém presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão.
UE amplia cooperação com Brasil, mas ainda não classifica PCC como terrorista
A União Europeia e o Brasil assinaram em março do ano passado um acordo para ampliar a cooperação entre a Europol e a Polícia Federal. O instrumento permite a troca de dados pessoais e não pessoais para investigações de crimes graves e terrorismo, inclusive em casos que envolvam organizações que atuam nos dois lados do Atlântico.
O acordo, porém, ainda não entrou em vigor. A Comissão Europeia afirma que os procedimentos necessários para aplicação do tratado ainda estão em andamento. O acordo permitirá, quando estiver em vigor, uma cooperação operacional mais ampla e o intercâmbio de informações sobre investigados, redes criminosas e operações transnacionais, atingindo grupos como o PCC e o CV.
A possibilidade de a Europa classificar grupos criminosos brasileiros como o PCC como terroristas, assim como fizeram os Estados Unidos, já foi questionada no Parlamento Europeu. Mas, em julho passado, a Comissão Europeia – braço executivo da UE – não sinalizou intenção de adotar a medida, limitando-se a explicar que esse tipo de decisão cabe ao Conselho da União Europeia, que reúne os governantes dos países-membros do bloco.
Fonte ==> Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto