“A Pequena Prisão” aproxima a história de Igor Mendes de uma reflexão direta sobre a função estrutural do cárcere e os limites da liberdade civil. Preso em dezembro de 2014, no contexto de criminalização das manifestações de 2013, o estudante de Geografia da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) passou quase sete meses encarcerado, acusado de descumprir medidas cautelares e tornando-se o ativista que mais tempo permaneceu privado de liberdade entre os 23 réus do processo.
Anos antes da absolvição sumária do grupo pela Justiça, que reconheceu a denúncia forjada sobre provas ilegais, a experiência no complexo penitenciário virou testemunho literário e, agora, matéria cênica.
A adaptação dramatúrgica de Daniela Pereira de Carvalho converte a narrativa confessional de Mendes em partitura polifônica. A escrita encadeia com precisão a alternância de registros: da crueza da violência institucional ao humor ácido e à memória afetiva, humanizando figuras que o senso comum costuma reduzir à estatística carcerária.
Dessa forma, a peça expõe a dupla camada de confinamento: a prisão interna de Bangu, regida pela despersonalização burocrática e por violências codificadas; e a prisão externa da dita sociedade livre, sustentada pela seletividade penal, pela criminalização dos movimentos sociais e pela indiferença cotidiana.
A direção de Fernando Ceylão parte da arquitetura da sala do Teatro Poeirinha para construir uma dinâmica de confronto direto. Ao dispor o público em duas fileiras frente a frente ao longo de um corredor estreito, Ceylão anula qualquer distância de segurança estética e obriga a plateia a testemunhar tanto a ação cênica quanto a reação de quem assiste do lado oposto.
O espaço é continuamente reconfigurado por oito grandes portas-grade de ferro móveis, que deslizam e batem para desenhar celas sufocantes, passagens, pátios e até pessoas. Dentro dessa estrutura metálica que dita o ritmo do confinamento, Vino Fragoso conduz um trabalho solo no qual dá corpo a cerca de trinta personagens apenas pela modulação da voz, pela tensão muscular e pelo olhar.
É nesse ambiente de limite físico e psicológico que a encenação reinscreve a máxima de Jean-Paul Sartre (1905-1980) sobre o inferno serem os outros. Na cela, a alteridade representa a ameaça permanente e a disputa por espaço, mas é também a única via para preservar a própria humanidade.
Como a montagem lembra, o cotidiano teima em se reorganizar sob qualquer condição de existência, encontrando brechas para se refazer. Nesse contexto de embrutecimento programado, ter bondade passa a exigir uma dose concreta de coragem: a partilha do tabaco, a escuta atenta e os pactos de solidariedade silenciosa convertem o afeto em ato de insubmissão política.
A encenação inverte o sentido do cativeiro ao indagar quais grades permanecem erguidas fora dos muros da penitenciária. O preconceito de classe, o medo urbano e a vigilância constante transformam a própria cidade num grande espaço de contenção, tornando as galerias de Bangu o sintoma mais visível de uma neurose coletiva que organiza a rotina de quem se supõe livre.
Três perguntas para…
… Vino Fragoso
O dispositivo das portas-grade móveis atua como um parceiro de cena vivo. Como o manuseio desse peso e do ruído metálico dita a respiração e a cadência da sua atuação?
Desde que li o livro, entendi que seria um monólogo. Como ator, cenógrafo e artista visual, essa relação entre corpo, espaço e objeto vem de uma pesquisa antiga sobre Antonin Artaud e o Teatro da Crueldade. E “A Pequena Prisão” é o meu trabalho mais artaudiano justamente por esse caráter ritualístico.
A ideia foi transformar as grades em parceiras de cena. O ruído, o peso, o volume e a velocidade do manuseio viram narrativa: existe uma relação constante de tempo e pressão para contar a história, formando um organismo único entre mim e a estrutura. As grades criam um pulso, o impacto do metal assusta e pontua a ação.
Se uma roldana emperra ou corre mais rápido, isso altera imediatamente minha respiração, meu tônus e meu tempo cênico. Trabalhei muito essa precisão nos ensaios para que a dificuldade física de transitar entre elas também fosse dramaturgia. É como se as portas respirassem comigo.
Quais foram os principais cuidados para retratar figuras tão distintas —de agentes estatais a lideranças da massa carcerária— sem cair no estereótipo ou na caricatura?
Esse foi um dos meus maiores cuidados e receios, porque o imaginário sobre o sistema prisional brasileiro é saturado de clichês. Meu objetivo era ultrapassar essa barreira e encontrar uma camada de humanidade em cada figura: um gesto, um olhar, um ritmo de fala que singularizasse aquele sujeito, independentemente do papel que ocupa.
Como o Igor fala no livro, no fundo todos estão presos à mesma engrenagem, sejam oprimidos ou opressores. A lógica do “dividir para dominar” faz da prisão um microcosmo da sociedade. Meu foco não foi encenar apenas a função social do personagem —o preso ou o agente—, mas a pessoa por trás dela.
Para construir essas presenças, recorri ao estudo das máscaras balinesas e aos princípios de Artaud de transição entre estados emocionais. Busquei acessar o espírito de cada figura para colocar a humanidade antes do tipo social.
Como você enxerga o papel do afeto e da partilha entre os indivíduos confinados como um gesto de resistência política dentro de uma engrenagem que busca a desumanização?
A cooperação e o afeto são as nossas formas mais primitivas de sobrevivência. O sistema penitenciário opera como um projeto de poder que desumaniza e transforma indivíduos em números, esvaziando qualquer perspectiva de reinserção.
Ainda que existam disputas e violências internas, a massa não subsiste sem pactos coletivos de convivência e partilha. O afeto no cárcere adquire dimensão estritamente política porque resguarda o que a instituição tenta aniquilar: a capacidade de reconhecer o outro como semelhante.
Nas situações-limite, quando tudo parece ruir, é o cotidiano compartilhado e esses laços mínimos que reorganizam a vida e sustentam a travessia. Sem isso, não há como manter a esperança — e a cadeia é o lugar que mais exige esperança para se continuar existindo.
Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h. Até 30/8. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br
Fonte ==> Folha SP