Leitora relata rejeição da família do marido por 25 anos – 19/08/2026 – Amor Crônico

Ilustração em estilo gráfico mostra uma mulher vista de costas, com cabelo curto castanho em corte reto, vestindo blusa rosa. Ela está posicionada no centro da imagem, levemente curvada para frente, com os braços próximos ao corpo, transmitindo postura de recolhimento ou desconforto.  Ao redor dela, quatro mãos grandes usando luvas azuis aparecem vindas das laterais da imagem, com as palmas abertas e voltadas em sua direção, como se estivessem dizendo “pare” ou bloqueando sua passagem. As mãos vestem mangas claras com punhos abotoados, sugerindo figuras de autoridade ou profissionais.

“Sou casada há 25 anos e a família dele nunca me aceitou mais do que 50%.”

As cenas de desafeto que essa leitora relata são miúdas, mas frequentes. No grupo de WhatsApp da família, quando alguém precisa de alguma coisa, ela se prontifica; quando é ela quem escreve, ninguém responde. No próprio aniversário, abriu mão de uma comemoração própria para seguir a tradição familiar do marido: pizza de domingo na casa do sogro, com TV e tranca. Foi ela quem pagou a pizza e quem, mais uma vez, não recebeu presente.

“Sempre relevei a maneira deles comigo e tentei dar o meu melhor: elogios, ajuda, atenção, presentes bonitos e cuidadosos, como livros e perfume francês…”

Até que um pequeno descuido vira a gota d’água. Em mais uma reunião familiar, uma cunhada voltou de férias e presenteou cada mulher da família com uma caixa de chocolate importado. Quando a leitora foi se despedir, ganhou um beijo e mais nada. Já de saída, ouviu: “Espera.” Recebeu um saquinho de papel pardo com um chocolatinho comum.

Migalhas de descuido entremeadas com migalhas de afeto.

Nem toda hostilidade aparece de forma agressiva e direta. Há a repetição de pequenas indelicadezas que escancaram o não pertencimento. É impressionante como a soma de pequenos silenciamentos é capaz de produzir grandes exílios.

“Sou uma idiota por continuar fingindo que não dói, e continuar a presentear pessoas assim?”, pergunta a leitora, assustada com o tamanho do próprio desamparo.

Nos incomodamos duplamente por seguirmos sendo maltratadas e por darmos importância desmedida a quem nos dá tão pouco. E aí, sem perceber, fazemos com o nosso incômodo o mesmo que fazem conosco: duvidamos dele e nos sentimos infantis. Tomados por essa pequenez, voltamos ao modo “filhos amorosos e prestativos” que fazem de tudo para serem amados. Como finalmente fazer parte daquela família, daquela empresa, daquela turma de amigas?

A mudança no presente não se dá sem olhar para o passado. O que nos faltou? Que amor não nos foi dado?

Para ela, a resposta veio em sonho. “Na noite do chocolate fui dormir chorando e sonhei com meu aniversário de 10 anos”, conta. “Na infância, minha mãe fazia uma festa só, sempre no dia do meu irmão. Os parentes só traziam presente para ele e nada para mim. Aos 10, ela fez uma festa para cada um pela primeira vez. Ninguém foi à minha. Em silêncio, vi minha mãe jogar no lixo bandejas inteiras de salgadinhos e doces. Ela nem cantou parabéns.” E confessa: “Eu interpretei aquilo como se ninguém gostasse de mim, e eu não merecesse ser celebrada nem por meus pais. Como se a culpa fosse minha.”

Ferenczi aponta que o trauma não é o evento em si, e sim a ausência de acolhimento e nomeação por parte de quem deveria nos amparar. O bolo jogado no lixo em silêncio é um exemplo cotidiano e cruel dessa ausência de palavras.

E o trauma não é algo excessivamente trágico. Cada um de nós tem seu próprio inventário de cenas do papel pardo: as que embrulham o estômago e enchem os olhos de lágrimas sem que a gente se permita desaguar e nomear. Pelo menos não diante daqueles de quem ainda desejamos o amor. Quais são as suas? E como você as repete hoje?

Casar é, para muitos, a chance de viver o amor que não pudemos viver em casa. Apaixonamo-nos não só pelo marido, mas pela dinâmica dele com a família de origem: a mesa cheia de domingo, pela familiona que joga tranca e se presenteia. Amamos, naquele que escolhemos, aquilo que gostaríamos de ser ou de ter tido.

Nossas novas relações prometem reparar a infância. Cuidar da criança ferida. O perverso é que nossa tentativa de redenção contém o que Freud nomeia como compulsão à repetição: repetimos a dinâmica do trauma original na tentativa inconsciente de mudar o desfecho. Seguimos batalhando para sermos aceitas pela família hostil do marido ou pela turma popular do trabalho. Seguimos nos esforçando mais para sermos amáveis e assim amadas. Seguimos acreditando, assim como a leitora, que o problema está em nós.

Se o trauma se dá pela ausência de nomeação, o primeiro convite é nomear as faltas sem se julgar. Dizer “me senti invisível por nunca ter um aniversário só meu”.

Se quando pequenos não tínhamos alternativa senão adivinhar o que aqueles adultos esperavam de nós, adultos podemos perguntar: para quem estamos oferecendo nossos presentes bonitos e chocolates importados? Por que seguimos esperando amor de quem nos trata mal?

Desinvestir é se proteger. É parar de esperar colo de quem é ruim de colo. É parar de deixar que seus aniversários sejam celebrados num contexto que não te celebra. Não é romper nem brigar no almoço de domingo, é ir com menos expectativa, ficar menos tempo, não levar presente, silenciar o grupo da família dele e comemorar as datas que importam em outro lugar, com outra gente.

Permitir-se se afastar e entender que provavelmente você também não gosta deles é libertador. É preciso abrir mão da ideia de nova família feliz para lidar com o real. Mas para que o desamor das cunhadas doa menos, precisamos ter outras fontes de amor. Somos seres relacionais. Nos redescobrimos pelo outro. Abra espaço para as famílias escolhidas: amigas, colegas, gente que compartilha o cuidado que temos.

E não, você não é uma idiota. Você é alguém que aprendeu cedo demais a fazer por merecer aquilo que deveria ter sido dado de graça.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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