“Sou casada há 25 anos e a família dele nunca me aceitou mais do que 50%.”
As cenas de desafeto que essa leitora relata são miúdas, mas frequentes. No grupo de WhatsApp da família, quando alguém precisa de alguma coisa, ela se prontifica; quando é ela quem escreve, ninguém responde. No próprio aniversário, abriu mão de uma comemoração própria para seguir a tradição familiar do marido: pizza de domingo na casa do sogro, com TV e tranca. Foi ela quem pagou a pizza e quem, mais uma vez, não recebeu presente.
“Sempre relevei a maneira deles comigo e tentei dar o meu melhor: elogios, ajuda, atenção, presentes bonitos e cuidadosos, como livros e perfume francês…”
Até que um pequeno descuido vira a gota d’água. Em mais uma reunião familiar, uma cunhada voltou de férias e presenteou cada mulher da família com uma caixa de chocolate importado. Quando a leitora foi se despedir, ganhou um beijo e mais nada. Já de saída, ouviu: “Espera.” Recebeu um saquinho de papel pardo com um chocolatinho comum.
Migalhas de descuido entremeadas com migalhas de afeto.
Nem toda hostilidade aparece de forma agressiva e direta. Há a repetição de pequenas indelicadezas que escancaram o não pertencimento. É impressionante como a soma de pequenos silenciamentos é capaz de produzir grandes exílios.
“Sou uma idiota por continuar fingindo que não dói, e continuar a presentear pessoas assim?”, pergunta a leitora, assustada com o tamanho do próprio desamparo.
Nos incomodamos duplamente por seguirmos sendo maltratadas e por darmos importância desmedida a quem nos dá tão pouco. E aí, sem perceber, fazemos com o nosso incômodo o mesmo que fazem conosco: duvidamos dele e nos sentimos infantis. Tomados por essa pequenez, voltamos ao modo “filhos amorosos e prestativos” que fazem de tudo para serem amados. Como finalmente fazer parte daquela família, daquela empresa, daquela turma de amigas?
A mudança no presente não se dá sem olhar para o passado. O que nos faltou? Que amor não nos foi dado?
Para ela, a resposta veio em sonho. “Na noite do chocolate fui dormir chorando e sonhei com meu aniversário de 10 anos”, conta. “Na infância, minha mãe fazia uma festa só, sempre no dia do meu irmão. Os parentes só traziam presente para ele e nada para mim. Aos 10, ela fez uma festa para cada um pela primeira vez. Ninguém foi à minha. Em silêncio, vi minha mãe jogar no lixo bandejas inteiras de salgadinhos e doces. Ela nem cantou parabéns.” E confessa: “Eu interpretei aquilo como se ninguém gostasse de mim, e eu não merecesse ser celebrada nem por meus pais. Como se a culpa fosse minha.”
Ferenczi aponta que o trauma não é o evento em si, e sim a ausência de acolhimento e nomeação por parte de quem deveria nos amparar. O bolo jogado no lixo em silêncio é um exemplo cotidiano e cruel dessa ausência de palavras.
E o trauma não é algo excessivamente trágico. Cada um de nós tem seu próprio inventário de cenas do papel pardo: as que embrulham o estômago e enchem os olhos de lágrimas sem que a gente se permita desaguar e nomear. Pelo menos não diante daqueles de quem ainda desejamos o amor. Quais são as suas? E como você as repete hoje?
Casar é, para muitos, a chance de viver o amor que não pudemos viver em casa. Apaixonamo-nos não só pelo marido, mas pela dinâmica dele com a família de origem: a mesa cheia de domingo, pela familiona que joga tranca e se presenteia. Amamos, naquele que escolhemos, aquilo que gostaríamos de ser ou de ter tido.
Nossas novas relações prometem reparar a infância. Cuidar da criança ferida. O perverso é que nossa tentativa de redenção contém o que Freud nomeia como compulsão à repetição: repetimos a dinâmica do trauma original na tentativa inconsciente de mudar o desfecho. Seguimos batalhando para sermos aceitas pela família hostil do marido ou pela turma popular do trabalho. Seguimos nos esforçando mais para sermos amáveis e assim amadas. Seguimos acreditando, assim como a leitora, que o problema está em nós.
Se o trauma se dá pela ausência de nomeação, o primeiro convite é nomear as faltas sem se julgar. Dizer “me senti invisível por nunca ter um aniversário só meu”.
Se quando pequenos não tínhamos alternativa senão adivinhar o que aqueles adultos esperavam de nós, adultos podemos perguntar: para quem estamos oferecendo nossos presentes bonitos e chocolates importados? Por que seguimos esperando amor de quem nos trata mal?
Desinvestir é se proteger. É parar de esperar colo de quem é ruim de colo. É parar de deixar que seus aniversários sejam celebrados num contexto que não te celebra. Não é romper nem brigar no almoço de domingo, é ir com menos expectativa, ficar menos tempo, não levar presente, silenciar o grupo da família dele e comemorar as datas que importam em outro lugar, com outra gente.
Permitir-se se afastar e entender que provavelmente você também não gosta deles é libertador. É preciso abrir mão da ideia de nova família feliz para lidar com o real. Mas para que o desamor das cunhadas doa menos, precisamos ter outras fontes de amor. Somos seres relacionais. Nos redescobrimos pelo outro. Abra espaço para as famílias escolhidas: amigas, colegas, gente que compartilha o cuidado que temos.
E não, você não é uma idiota. Você é alguém que aprendeu cedo demais a fazer por merecer aquilo que deveria ter sido dado de graça.
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Fonte ==> Folha SP